Modelagens preditivas desenvolvidas pela InfoDengue e pela Fiocruz indicam que o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027, com uma variação estimada entre 1 milhão e 5,6 milhões de ocorrências. A projeção, associada às mudanças climáticas e aos impactos de um Super El Niño, acendeu um alerta crítico no Ministério da Saúde e em centros de pesquisa quanto ao avanço da doença no país.
Especialistas apontam que a Região Sudeste poderá enfrentar um acréscimo de cerca de 60% nos casos, enquanto a Região Sul tem perspectiva de alta em torno de 20%. Outro fator de atenção para a próxima temporada é a tendência de maior circulação do sorotipo DENV-3, principalmente na região Sudeste, o que eleva o risco de novas epidemias devido à baixa imunidade prévia da população contra essa cepa.
Campanha de conscientização e dados de mortalidade
Para combater a falsa sensação de segurança da população em relação à infecção transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a farmacêutica Takeda lançou a campanha “Não se engane: a dengue é pior do que parece”. A iniciativa busca resgatar o senso de urgência e contrasta o impacto da doença com ocorrências cotidianas. Os dados da temporada de 2024 serviram de base para ilustrar a gravidade do problema: naquele ano, a dengue afetou mais de 6,5 milhões de pessoas e causou mais de 6.000 mortes no Brasil — índice descrito como nove vezes superior ao de óbitos por acidentes de automóveis em rodovias, 35 vezes maior que o de afogamentos em piscinas e 44 vezes maior que o de mortes por engasgos.
Balanço da vacinação e o imunizante Qdenga
Única vacina contra a dengue aprovada e disponível no país, o imunizante Qdenga (produzido pela Takeda) é fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, além de ser comercializado na rede privada para a faixa etária de 4 a 60 anos. Segundo Rodrigo Martins, diretor da Unidade de Negócios de Especialidades e Vacinas da empresa, o Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar a vacina na rede pública.
O primeiro contrato com o Ministério da Saúde, referente a 15,6 milhões de doses, foi integralmente cumprido até o final de 2025. Em junho de 2026, um segundo acordo foi formalizado para a entrega de 18 milhões de doses no biênio 2026–2027, com as primeiras 4 milhões de doses entregues em julho de 2026. No acumulado entre janeiro de 2024 e agosto de 2026, a farmacêutica distribuiu mais de 21,7 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Até setembro de 2026, o país registrou 12,6 milhões de doses efetivamente aplicadas, beneficiando mais de 8 milhões de vacinados. A previsão é concluir a entrega total das 18 milhões de doses do contrato vigente até agosto de 2027.
Desafios na adesão e eficácia da segunda dose
Um dos obstáculos apontados pela companhia é a taxa de adesão à segunda dose do imunizante, que registra 54% no histórico da campanha pública nacional. O esquema de duas doses é apontado como indispensável para garantir a proteção máxima contra os quatro sorotipos do vírus.
Um estudo independente liderado pelo infectologista Julio Croda, da Fiocruz e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, realizado com mais de 166.000 testes em adolescentes em São Paulo durante o pico epidêmico de 2024/2025, demonstrou que o esquema completo da Qdenga atinge 87,9% de efetividade contra hospitalizações e 73,1% de proteção contra a doença sintomática.
Investigação de outra vacina e posicionamento da empresa
Questionada sobre eventuais reflexos da suspensão preventiva da vacina do Instituto Butantan pelo Ministério da Saúde — motivada pela apuração de relatos de eventos adversos graves —, a diretora médica da Takeda, Vivian Lee, esclareceu que os casos investigados não possuem qualquer relação com a Qdenga. A executiva reconheceu que episódios de saúde pública podem gerar dúvidas e hesitação vacinal, mas ressaltou que a vacina da Takeda é fruto de mais de 20 anos de desenvolvimento e passou por testes clínicos em 14 países com mais de 28.000 participantes, apresentando redução de 80,2% nos casos sintomáticos e de 90,4% nas hospitalizações em ensaios de eficácia e segurança.
