Liderados por figuras religiosas de destaque, debates em fóruns como o TikTok, podcasts e o setor editorial têm levantado questionamentos sobre a possibilidade de a inteligência artificial atuar como um catalisador para a destruição do planeta e representar o fim dos tempos.
O megapastor americano Philip Anthony Mitchell, radicado em Atlanta, nos Estados Unidos, afirmou anteriormente que a inteligência artificial terá um papel central nos tempos finais. A discussão sobre o tema tem engajado outros líderes religiosos, a exemplo de Greg Laurie, que considera bastante possível que a IA faça parte de um cenário de fim dos mundos, e Mike Signorelli, que aponta a tecnologia como parte integrante do caminho até o Anticristo.
Embora reconheçam utilidades benéficas na ferramenta, esses pastores alertam que o representante de Satã poderá empregar a tecnologia para atrair fiéis à sua adoração em detrimento de Deus. No cristianismo, o Apocalipse — último livro da Bíblia — traz descrições como a besta que emerge do mar, interpretada por alguns como o Anticristo. Enquanto alguns veem o texto de forma metafórica sobre perseguições do Império Romano, outros tratam o material como profecia, sugerindo que a IA seria um falso profeta ou o próprio Anticristo.
Especialistas apontam que especulações sobre o fim dos tempos costumam florescer em períodos de transição acelerada e intensa incerteza social. A professora Noreen Herzfeld, da Escola de Teologia e Seminário de São João, compara o impacto da IA sobre postos de trabalho à revolução industrial e avalia que o avanço tecnológico gera ansiedade, perda de autonomia e receios compartilhados até mesmo por executivos do setor de tecnologia e pesquisadores, como o ex-integrante da Anthropic, Jacob Coxon.
Dados do Pew Research Center de 2022 apontam que cerca de 40% dos adultos americanos acreditam viver no fim dos tempos, índice que sobe para 47% entre cristãos, grupo do qual faz parte o pastor Mike Signorelli. Historiadores e teólogos relembram que medos de diferentes épocas foram projetados em figuras históricas ou geopolíticas, como o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt durante a Grande Depressão, o comunismo e a União Soviética durante a Guerra Fria, e o Islã após os ataques de 11 de setembro de 2001.
O pastor australiano Stephen Driscoll, autor de um livro sobre Deus e a inteligência artificial, aponta a tecnologia como uma candidata plausível devido ao seu potencial assustador, mas pondera que a Bíblia serve para preparar a humanidade para as mudanças. Segundo Driscoll, o Velho Testamento aborda inovações agrícolas e aponta que a sabedoria tecnológica e o controle sobre todas as eras — da pedra até a inteligência artificial — pertencem a Deus.
