Em artigo alusivo ao Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, o doutor em Endocrinologia e Metabologia Clayton Macedo aborda a dualidade enfrentada atualmente pela profissão. Segundo o texto, existem hoje duas vertentes: a medicina fundamentada na ética e nas evidências científicas, e a prática voltada ao faturamento e à pseudociência.
Macedo destaca que a primeira vertente busca reconhecer doenças, aliviar o sofrimento e preservar uma vida saudável. Por outro lado, a pseudociência apropria-se da linguagem do cuidado para comercializar insatisfação, inadequação alarmista e ilusões. O autor aponta que o desvio ético começa quando a decisão clínica passa a servir à venda e ao lucro, transformando exames desnecessários e receitas em pedidos de compra.
O especialista aponta que desejos legítimos, como emagrecer, ganhar força ou envelhecer com autonomia, tornam-se alvos de exploração quando a insegurança é convertida em falso diagnóstico. O roteiro comercial frequentemente envolve convencer o paciente de que os parâmetros convencionais são insuficientes e sugerir deficiências não reconhecidas pela medicina tradicional, oferecendo em seguida combinações exclusivas de hormônios, medicamentos manipulados ou contrabandeados, soros, fórmulas e vitaminas.
Intervenções sem indicação médica podem provocar complicações nas esferas cardiovascular, hepática, reprodutiva e psiquiátrica. Quando surgem problemas decorrentes dessas práticas, o atendimento costuma ser assumido por médicos autênticos. O autor reforça que tratamentos hormonais, terapias para menopausa e medicamentos contra obesidade possuem indicações importantes e transformam trajetórias de doenças, desde que aplicados em contextos clínicos adequados e reais.
Para combater o mercantilismo, o artigo aponta que conselhos profissionais, vigilância sanitária e órgãos de defesa do consumidor precisam atuar de forma articulada. Além disso, o debate deve alcançar a formação acadêmica, combatendo cursos rápidos que ensinam técnicas de vendas sem rigor científico e cobrando maior fiscalização sobre a expansão de faculdades de medicina sem infraestrutura adequada.
O texto conclui celebrando os profissionais que honram o juramento médico, priorizando o acolhimento, o diagnóstico real e o alívio do sofrimento, enquanto apontam que muitos pacientes saem de uma consulta com a notícia de que não precisam de prescrições desnecessárias.
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/letra-de-medico/o-medico-que-voce-nao-deveria-consultar/
