Ao chegar na escola onde trabalha, na manhã de 8 de julho, a pedagoga Gabriele Melko, 50 anos, teve uma terrível experiência, no avesso da atividade que abraçou na juventude: ensinar. Naquele dia, no colégio estadual Eunice Borges da Rocha, em Curitiba, uma aluna do ensino médio se recusou a ir embora de uma festa vespertina organizada apenas para crianças. Após ser informada, a adolescente de 17 anos começou a xingar Gabriele e, em um ataque de fúria, desferiu socos contra ela, deixando a educadora com a boca cheia de cortes e o rosto inchado. Ela precisou ir ao hospital e registrar boletim de ocorrência. A mãe da estudante, inicialmente, se recusou a ir à escola, aparecendo somente por ordem do Conselho Tutelar. A menina foi suspensa e depois transferida, mas as marcas do episódio permaneceram.
Violência contra professores é fenômeno crescente no Brasil
Episódios como o de Gabriele não são isolados. Dados da OCDE mostram que 47% dos professores brasileiros relatam sofrer estresse por intimidações e abusos verbais, número muito acima da média de 18% entre os 55 países avaliados. Em 2014, esse índice era de apenas 12% no Brasil. Segundo o Centro do Professorado Paulista (CPP), 65% dos docentes paulistas já foram alvo de violência psicológica ou física no ambiente escolar.
A pedagoga Maria Inês Fini, da Academia Paulista de Educação, destaca que o aumento dos casos prejudica a qualidade do ensino. “Há um grave entrave para o ensino de qualidade”, afirma. A situação é agravada pela permissividade excessiva de alguns pais, que muitas vezes minimizam a falta de limites dos filhos e até mesmo confrontam os professores. “Eles vão frequentemente à escola para brigar com o docente, em uma completa inversão de valores”, diz Fátima Silva, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.
A professora de geografia Geisa Chaves, 52 anos, vivenciou a ira de um pai insatisfeito com a nota da filha. Durante uma abordagem na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ela foi alvo de mensagens e ligações de colegas preocupados com o homem que ameaçava agredi-la. “A culpa é sempre nossa por não ter feito o suficiente, não do aluno descomprometido”, relata.
O desrespeito aos professores também se espalha pela internet. Na escola particular onde leciona a professora de língua portuguesa Jane Queiroz, 56 anos, estudantes fizeram ameaças públicas à coordenadora nas redes sociais, como “vou enfiar uma caneta no pescoço dela”. Jane também ouviu de um aluno que ela só tinha emprego porque ele e os colegas “deixavam”.
Impactos psicológicos e evasão docente
A violência contra professores tem gerado consequências graves para a saúde mental dos educadores. Ansiedade, depressão e burnout são diagnósticos cada vez mais comuns. Segundo o psicólogo Sérgio Guimarães, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, mesmo quem não é vítima direta vive em estado de constante vigilância, temendo ser o próximo alvo. Na rede estadual paulista, foram concedidas mais de 42 mil licenças por transtornos mentais em 2024, média superior a 115 afastamentos por dia.
O caso de Michele Ramos, 37 anos, professora de biologia em São José dos Campos, ilustra a gravidade da situação. Um aluno colocou uma lâmina de vidro em seu copo d’água, que ela não bebeu após ser alertada por outros alunos. O episódio levou a um colapso nervoso, e ela precisou de tratamento psicológico. Três alunos foram suspensos, e o caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar e à polícia civil. “Já estava no limite, e o limite sempre vai aumentando”, desabafou em vídeo que ultrapassou 1 milhão de visualizações.
Além dos danos individuais, a violência também afeta o conteúdo lecionado. Um levantamento do Observatório Nacional da Violência contra Educadores revelou que 38% dos professores já foram orientados a evitar “temas polêmicos” como sexualidade, aborto, questões de gênero e política, enquanto 31% foram aconselhados a omitir certos tópicos de suas matérias para evitar reações violentas.
Exemplos de sucesso e o desafio brasileiro
Enquanto o Brasil enfrenta uma crise de respeito aos professores, algumas escolas mostram que é possível reverter o cenário. Na Escola Parque dos Sonhos, em Cubatão, o diretor Regis Marques implementou um programa de fortalecimento de laços entre alunos, pais e professores, com visitas domiciliares e regras claras. O resultado foi tão positivo que a escola recebeu, em 2025, o prêmio de melhor do mundo pela T4 Education. “O vínculo é peça-chave para a confiança. É preciso aproximar de uma vez por todas o aluno do professor”, afirma Regis.
O cenário atual, no entanto, é preocupante. Projeções do Instituto Semesp indicam que o Brasil terá um déficit de 235 mil professores no ensino básico até 2040, caso não sejam tomadas medidas para tornar a carreira mais atrativa, como ocorre em países onde os educadores são bem remunerados, valorizados e respeitados.
