NewsHub
Economia

Ameaça de conflito e gastos com defesa mobilizam montadoras europeias em meio à crise no setor

Montadoras europeias e britânicas buscam no aumento de gastos com defesa e em parcerias com fabricantes chinesas uma alternativa para enfrentar crise e capacidade ociosa.

Redação•27 de set. de 2026, 12:00
Ameaça de conflito e gastos com defesa mobilizam montadoras europeias em meio à crise no setor
Imagem: site

Ameaça de conflito e gastos com defesa mobilizam montadoras europeias em meio à crise no setor

Ouça esta matéria em voz alta

A indústria automobilística da Europa e do Reino Unido enfrenta um cenário de forte enfraquecimento e busca alternativas para lidar com a capacidade ociosa de suas fábricas, incluindo a aposta no setor de defesa diante do aumento dos gastos militares no continente.

A Ford participa de uma joint venture com a General Dynamics e a Ricardo para disputar um contrato com o Ministério da Defesa do Reino Unido. O objetivo é fornecer 9.000 veículos leves ao longo de cinco a sete anos, substituindo a frota atual do Exército baseada em modelos Land Rover. A unidade da Ford em Dagenham, no leste de Londres, produz motores a diesel de três litros para o modelo militar, em um momento em que o volume anual da fábrica caiu de 90 mil unidades para cerca da metade na última década. Lisa Brankin, presidente da Ford no Reino Unido, classificou o momento como o mais desafiador para o setor desde a invenção do automóvel e destacou que a empresa avalia todas as oportunidades no setor de defesa.

Outras montadoras também buscam espaço na área militar. A francesa Renault firmou um acordo com a Thales para produzir drones militares com meta de até 1.000 unidades mensais. Já a Volkswagen concordou em vender uma fábrica subutilizada em Osnabrück para transformá-la em um polo de produção militar em parceria com um investidor israelense do setor de defesa. A Jaguar Land Rover (JLR) também disputa a licitação do Exército britânico e criou uma nova divisão para focar em expansão militar global.

Representantes da indústria e especialistas apontam que o setor automobilístico europeu atravessa uma forte crise, impulsionada por altos custos na transição para veículos elétricos, demanda de consumidores abaixo das metas governamentais e forte concorrência de fabricantes chinesas, como BYD, Chery e Geely, que avançam no mercado europeu após a saturação do mercado na China. Com estimativas de capacidade ociosa equivalente a 2,5 milhões de veículos por ano na Europa Ocidental, montadoras têm anunciado cortes drásticos de empregos, como os 4.000 postos de trabalho cortados recentemente pela JLR e os planos da Volkswagen de cortar 100 mil postos nos próximos anos, além do fechamento de unidades.

Diante desse cenário, fornecedores e associações do setor pedem apoio governamental para redirecionar parte da capacidade ociosa para os setores de defesa e aeroespacial. Contudo, Sigrid de Vries, diretora-geral da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (Acea), alerta que, embora as montadoras tenham instalações e know-how logístico úteis, protocolos de segurança, rivalidades políticas e o fato de a demanda militar não alcançar os volumes civis impedem que a defesa resolva totalmente a ociosidade industrial.

Como alternativa adicional para reduzir custos fixos, algumas montadoras tradicionais têm aberto suas linhas de montagem para marcas chinesas. A Stellantis adquiriu 20% da Leapmotor, cuja produção passou da Polônia para a Espanha após tarifas sobre elétricos chineses. A Nissan avalia fabricar veículos da Chery em Sunderland, e a Volkswagen estuda compartilhar capacidade com parceiros chineses para evitar barreiras tarifárias na União Europeia e nos Estados Unidos.

Um porta-voz do Ministério da Defesa britânico afirmou que o governo busca dar um papel central à indústria local na entrega de veículos leves e que 85% dos gastos de defesa permanecem no país. No entanto, analistas e executivos ponderam que, mesmo com contratos militares, a indústria automobilística europeia dificilmente recuperará o peso industrial de antes.

Fonte: https://g1.globo.com/carros/noticia/2026/09/27/risco-de-guerra-pode-salvar-montadoras-europeias.ghtml

Compartilhar