Refletir sobre o desenvolvimento econômico exige afastar temporariamente fatores como instituições frágeis, relações sociais verticalizadas, patrimonialismo, clientelismo, apadrinhamento e deficiências educacionais. O foco recae sobre aspectos maleáveis, deixando de lado elementos considerados imutáveis, a exemplo da herança cultural, da geografia — que combina abundância de recursos naturais com o isolamento das principais rotas comerciais globais — e das tendências demográficas, frequentemente negligenciadas no debate eleitoral.
Conforme apontamentos de Ruchir Sharma, especialista indiano-americano com atuação em um fundo de investimentos de 20 bilhões de dólares, a demografia responde por pelo menos um terço do crescimento em nações que registraram saltos de desenvolvimento. Para sustentar esse impulso, a força de trabalho precisa registrar expansão mínima de 2%.
Outro elemento destacado por Sharma é o chamado "ciclo da vida", que caracteriza nações adotando posturas de austeridade durante crises graves, mas retomando o excesso de gastos assim que o cenário aparenta controle. Como exemplo positivo de reformas contínuas, o especialista menciona a Grécia, superando os níveis de rigor aplicados pela Argentina sob a gestão de Milei por meio de cortes radicais em benefícios e pensões — medida amarga que estabilizou a economia grega, contando posteriormente com o suporte de administrações de centro-direita.
O texto aponta ainda os exageros no tamanho do Estado como um critério relevante: quando a maior parte dos recursos é direcionada a benefícios em detrimento de investimentos em obras de infraestrutura, o ritmo de crescimento sofre prejuízos. China e Coreia do Sul são citadas como exemplos de nações que priorizaram a construção da economia antes de distribuir aposentadorias e outros benefícios, estratégias que não podem ser diretamente replicadas, embora a infraestrutura permaneça como o principal motor do crescimento.
Em contrapartida, o fator determinante para o insucesso econômico é o endividamento, com destaque para as dívidas do setor privado. O Brasil é apontado negativamente em dois quesitos adicionais: o déficit em conta corrente e a desigualdade, cujo foco reside no potencial de desestabilização política.
Projeções sobre a renda per capita indicam cenários temporais para que o patamar atual de 12 000 dólares alcance 30 000 dólares, superando a faixa de baixos rendimentos:
- Crescimento de 6% ao ano: período de quinze anos, atingindo a meta em 2041 (cenário inviável nas condições atuais).
- Crescimento de 4% ao ano: período de 23 anos, alcançando a marca em 2049.
- Crescimento de 2% ao ano: período de 45 anos, com conclusão prevista para 2071.
Embora parte das condições para acelerar o crescimento dependa do comportamento da economia global, a análise lamenta a escassez de preocupação com os fatores passíveis de controle, reforçando o alerta de Sharma: "É difícil dar certo e fácil dar errado".
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/mundialista/qual-caminho-para-dar-certo/
