Pesquisa divulgada neste domingo, 19, aponta que dois em cada três argentinos afirmam que a renda acaba antes do término do mês. Entre os entrevistados de baixa renda, o índice atinge 83,3%. O levantamento foi realizado pelo Monitor de Opinião Pública de setembro, da consultoria Zentrix, que ouviu 1.438 pessoas em todo o país entre 22 e 30 de setembro, apresentando margem de erro de 2,6 pontos percentuais.
De acordo com os dados, 56,2% dos participantes contraíram dívidas nos seis meses anteriores à pesquisa. Deste grupo, 55,1% recorreram ao crédito para custear despesas básicas como alimentação e saúde, enquanto 21,3% utilizaram empréstimos para pagar tarifas e serviços. Além disso, 81,8% declararam que seus salários não acompanham a inflação. Trata-se de percepções informadas pelos próprios entrevistados, sem configurar medição oficial da renda ou do endividamento familiar.
Os números contrapõem a desaceleração de preços defendida pelo governo de Javier Milei. A inflação oficial registrou 1,9% em setembro de 2026, acumulando alta de 33,4% em 12 meses, após superar 200% em 2023. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o custo das cestas básicas subiu 2,6% em um mês e mais de 38% em um ano durante agosto.
O cenário social e econômico mostra que a pobreza no primeiro semestre atingiu 32,3% da população, acima dos 28,2% do semestre anterior, ao passo que a indigência passou de 6,3% para 7,5%. O desemprego ficou em 7,9% no segundo trimestre. A atividade econômica também registrou retração de 0,6% no Produto Interno Bruto (PIB) entre o primeiro e o segundo trimestres, com queda mensal de 2,9% em julho na medição do Indec. O crescimento econômico ocorre de forma desigual, beneficiando setores como energia, mineração e agronegócio, ao passo que indústria e comércio enfrentam dificuldades. Analistas consultados pela Reuters estimam alta de 1,9% para 2026 e alertam para o risco de recessão técnica no terceiro trimestre.
O ajuste fiscal promovido pelo governo gerou conflitos em torno do financiamento de serviços públicos. Em outubro, estudantes e professores realizaram protestos em Buenos Aires para exigir o cumprimento de uma lei de recomposição de verbas para as universidades. A administração Milei recorreu de uma decisão judicial que obrigava o cumprimento da norma. A Universidade de Buenos Aires estima que os salários docentes perderam cerca de 30% do poder de compra na gestão atual. Na área de assistência a pessoas com deficiência, houve resistência no Congresso e disputas judiciais decorrentes de cortes e benefícios, além do processamento judicial de ex-dirigentes e empresários por suspeitas de subornos e sobrepreços na compra de medicamentos, sem equivaler a uma condenação.
A gestão argentina também repercutiu na política brasileira. Antes do primeiro turno, o presidente argentino declarou apoio a Flávio Bolsonaro e criticou Luiz Inácio Lula da Silva, com a equipe econômica de Flávio estudando medidas locais de desburocratização e redução de impostos. Após o primeiro turno, Lula utilizou o modelo argentino como alerta sobre potenciais impactos em programas sociais, enquanto Flávio evitou responder diretamente se adotaria o programa econômico de Milei em debates.
