A tentativa de sequestro de um voo da Flydubai aprofundou um ano de crise para as companhias aéreas do Oriente Médio, que já lidam com a desaceleração nas vendas de passagens e o encarecimento dos combustíveis provocados pela guerra na região. Os reinos do Golfo aplicaram bilhões para transformar a área em centros globais de viagens e conexões, mas os passageiros demonstram receio em transitar por hubs internacionais após a guerra liderada pelos Estados Unidos no Irã deixar milhares de pessoas retidas no início deste ano.
Dados da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) mostram que, em agosto, a demanda por voos nas empresas do Oriente Médio recuou 14,6% em comparação ao ano anterior, em contraste com o avanço de 0,6% registrado fora da região. O recente episódio pode desestimular ainda mais o fluxo de passageiros e intensificar as exigências por melhores protocolos de segurança. Em resposta, Israel informou que vai reforçar as verificações de segurança após um dos pilotos supostamente tentar derrubar a aeronave que viajava de Dubai para Tel Aviv.
A IATA aponta que o conflito no Oriente Médio deve reduzir pela metade a lucratividade das companhias aéreas neste ano frente a 2025. O setor também enfrenta despesas operacionais elevadas, custos crescentes de combustíveis e uma escassez global de tripulações. A consultoria Oliver Wyman projetou que o déficit de pilotos atingirá o pico neste ano, alcançando cerca de 24 mil profissionais. O Fórum Econômico Mundial alertou que a retração do turismo na região traz reflexos econômicos amplos, visto que o setor representou cerca de US$ 11,6 trilhões do PIB global no ano passado e sustentou 357 milhões de empregos.
Detalhes do ataque e ação a bordo
O voo FZ1073 da Flydubai decolou de Dubai às 6h05 no horário local da quarta-feira (30) rumo a Tel Aviv. Cerca de duas horas depois, a aeronave perdeu altitude rapidamente e realizou uma curva acentuada para o norte. Os dados de rastreamento indicam uma descida de 5 mil quilômetros em menos de dois minutos. Um chamado de socorro foi emitido às 8h31, antecedendo o acionamento do código 7500 da Organização de Aviação Civil Internacional, que sinaliza sequestro.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que um piloto esfaqueou seu colega e tentou sabotar o sistema da aeronave, forçando o voo a um mergulho abrupto e a um pouso de emergência na Arábia Saudita. O copiloto Smit Machchhar, originário da Índia, reagiu e evitou uma tragédia maior, segundo afirmou Netanyahu em conversa com Jim Sciutto, da CNN. Passageiros relataram momentos de pânico e caos durante a queda livre.
Diante da emergência, passageiros e tripulantes invadiram a cabine para conter o agressor. Yaniv Hayoun relatou ter imobilizado o suspeito com uma gravata e o arrastado para fora do espaço com apoio de outros viajantes, assumindo temporariamente os controles. O dentista Shota Musaev amarrou o suspeito com cabos de fone de ouvido e abraçadeiras plásticas antes de prestar socorro ao piloto ferido. Pilotos reserva que viajavam como passageiros também auxiliaram a retomar o controle da aeronave, que pousou às 9h54 no Aeroporto de Tabuk, na Arábia Saudita.
Situação dos pilotos
Um vídeo verificado pela CNN mostrou o interior da aeronave após o ocorrido, exibindo um dos pilotos gravemente ferido no chão, com o torso ensanguentado e auxiliado por passageiros. Ao lado, o suposto agressor aparecia contido e ferido. A principal operadora de aviação da Arábia Saudita confirmou que ambos foram hospitalizados.
Shota Musaev afirmou que o piloto esfaqueou sofreu grande perda de sangue e lesões severas. Um político local de Ghatkopar East, em Mumbai — cidade natal de Machchhar —, informou à CNN que familiares relataram que o piloto estava em estado estável após passar por cirurgia em um hospital saudita na quarta-feira.
