A Arábia Saudita, principal exportadora mundial de petróleo bruto, enfrenta uma ameaça sem precedentes em suas rotas comerciais com a intensificação dos ataques de milícias houthis e grupos apoiados pelo Irã. A situação agrava uma crise energética global que já afeta os consumidores nos Estados Unidos por meio do encarecimento dos combustíveis.
O cenário de instabilidade começou a se desenhar com a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro. O conflito provocou o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, bloqueando a principal via de exportação do reino e de outras nações do Golfo. Agora, rotas alternativas vitais também sofrem com a ofensiva de milícias.
Nas últimas semanas, ataques de milícias iraquianas atingiram o oleoduto Leste-Oeste saudita, paralisando milhões de barris que seriam escoados pelo porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Paralelamente, os houthis assumiram o controle do Estreito de Bab al-Mandeb, via essencial utilizada para desviar o petróleo saudita após o bloqueio em Ormuz, e decretaram um bloqueio à navegação do país.
Segundo Neil Quilliam, especialista em política energética e geopolítica do think tank Chatham House, em Londres, o impacto vai além do preço imediato do barril de petróleo. Para o especialista, a mudança estrutural ocorrida no Estreito de Ormuz desde 28 de fevereiro é irreversível.
Reação diplomática e militar
Diante do revés, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman solicitou pessoalmente a intervenção militar dos EUA, pedido que foi inicialmente recusado, conforme relatado por uma fonte familiarizada com o assunto. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, indicou que a decisão pode ser revista.
Por outro lado, o presidente dos EUA, Donald Trump, descartou ações imediatas contra os houthis, afirmando que mantém negociações com o grupo. Durante declarações a jornalistas no início do mês, Trump declarou que os houthis teriam entrado em contato e afirmado que não desejam lutar contra os Estados Unidos, apontando o conflito com a Arábia Saudita como uma questão específica entre as partes.
A postura cautelosa de Washington busca evitar a abertura de uma nova frente de batalha, sete meses após o início do conflito com o Irã. Especialistas também apontam dúvidas sobre a eficácia de bombardeios, lembrando que uma campanha de 50 dias liderada pelos EUA no ano passado terminou em trégua sem conter permanentemente os houthis.
Impacto econômico e político
Apesar da menor dependência direta dos EUA em relação ao petróleo da região, o mercado global faz com que qualquer interrupção na oferta saudita encareça o petróleo bruto em todo o mundo, refletindo diretamente nos postos de gasolina americanos.
A alta nos preços e a proximidade das eleições de meio de mandato em novembro tornam a situação um ponto de pressão política sensível para a administração de Donald Trump. Enquanto isso, o clima de tensão se reflete internamente na Arábia Saudita, onde exibições festivas de drones e fogos de artifício foram canceladas em meio ao temor de novos ataques.
