Os rápidos avanços tecnológicos da inteligência artificial chinesa no último ano têm gerado preocupações em Washington sobre a possibilidade real de a segunda maior economia mundial superar os Estados Unidos na corrida pela liderança global no setor. No início deste mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que os norte-americanos estão à frente na área de IA e manifestou o desejo de manter essa posição, afirmando que quem vencer nessa frente sairá vitorioso globalmente.
Enquanto os Estados Unidos contam com vantagens como laboratórios pioneiros, chips avançados e investidores com recursos vastos — e buscam pressionar países ao redor do planeta a escolherem um lado —, a estratégia da China tem atraído ampla adesão com base em um ecossistema mais aberto, acessível e de custos reduzidos. Em julho, o líder chinês Xi Jinping lançou a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, grupo rival da aliança Pax Silica, criada por Trump no ano passado para diminuir a dependência chinesa nas cadeias de suprimentos da tecnologia.
Enquanto a Pax Silica reuniu mais de duas dezenas de nações e a União Europeia, a iniciativa de Xi Jinping atraiu 29 países, incluindo Rússia, Indonésia e Paquistão, adeptos de modelos abertos que permitem o download e a customização gratuita, sem taxas cobradas por empresas americanas como OpenAI e Anthropic. Eric Olander, editor-chefe do The China-Global South Project, apontou que desenvolvedores do Sul Global frequentemente veem mais utilidade em modelos de baixo custo da DeepSeek ou da Moonshot do que em sistemas mais robustos que exigem assinaturas caras e acesso a nuvens estrangeiras.
A tecnologia esteve no centro da cúpula entre Trump e Xi. Para Xi Jinping, a atitude adequada diante da inteligência artificial é aproveitar os pontos fortes mútuos em vez de adotar posturas protecionistas contra o outro, defendendo a continuidade do diálogo bilateral para avaliar riscos e benefícios. Apesar de manterem conversas agendadas sobre o tema para setembro e estabelecerem canais de comunicação, a cúpula produziu poucos avanços concretos devido à desconfiança mútua.
Restrições de acesso a chips avançados por conta de controles de exportação americanos e mercados de capitais menores impulsionaram desenvolvedores chineses em direção a modelos abertos. O uso global de modelos chineses saltou de menos de 15% para mais de 54%, impulsionado pelo DeepSeek, e empresas norte-americanas como Airbnb, Shopify e DoorDash passaram a adotá-los em busca de flexibilidade e economia. Especialistas ponderam, no entanto, que o sucesso contínuo da abordagem chinesa depende da manutenção da acessibilidade sem restrições, uma vez que Pequim também prioriza a segurança nacional e pode impor limites regulatórios para evitar abusos cibernéticos.
Em paralelo, Washington intensificou acusações de que a China estaria envolvida em roubo de segredos comerciais em larga escala. Relatórios da Anthropic e da OpenAI alegam que laboratórios chineses treinaram seus modelos com base em dados de sistemas americanos por meio de um processo de destilação. Pequim rejeitou tais acusações, enquanto gigantes da tecnologia como Meta, Microsoft e Nvidia alertaram contra restrições excessivas e abrangentes a modelos de código aberto.
