O cofundador da Microsoft, Bill Gates, declarou que as ferramentas de inteligência artificial (IA) atingiram um patamar que possibilita o desenvolvimento de armas biológicas capazes de matar centenas de milhões de pessoas. Além disso, segundo o empresário, a tecnologia já é capaz de executar ataques cibernéticos para esvaziar contas bancárias ou paralisar o fornecimento de energia elétrica. A entrevista foi concedida ao jornalista Ezra Klein, do jornal americano New York Times, e publicada em 29 de setembro.
Durante a conversa, Gates defendeu a implementação imediata de monitoramento obrigatório e salvaguardas estritas sobre os modelos de IA, argumentando que a regulação governamental é urgente. Para ele, deixar a definição de limites de segurança nas mãos das próprias empresas do setor seria insano. O empresário destacou que o risco mais imediato não reside na perda de controle humano sobre sistemas autônomos, mas sim no aproveitamento de ferramentas atuais por agentes mal-intencionados. Gates afirmou que os modelos atuais conseguem localizar falhas complexas em códigos — inclusive vulnerabilidades que passaram de percebidas por especialistas durante décadas — e auxiliar na fabricação de novas moléculas, utilidade que pode servir tanto para a ciência quanto para a criação de armas biológicas.
Para exemplificar a necessidade de fiscalização, Gates comparou a tecnologia a setores como aviação, indústria automotiva e de medicamentos, questionando se áreas críticas operam sem órgãos de segurança reguladores ou exigências básicas como o cinto de segurança. Ele rejeitou a eficácia de processos judiciais posteriores aos danos e criticou a visão — atribuída por Klein à administração de Donald Trump, ao investidor David Sacks e ao presidente da Nvidia, Jensen Huang — de que a reputação corporativa e a responsabilidade civil seriam suficientes para garantir a segurança.
Modelos abertos e regulação
O ex-executivo da Microsoft argumentou que os filtros internos criados pelas empresas são insuficientes, pois sistemas de código aberto podem sofrer modificações para excluir mecanismos de supervisão. A proposta de Gates é que os modelos com capacidades avançadas fiquem restritos a plataformas monitoradas, impedindo a remoção de barreiras contra a exploração cibernética e a síntese de substâncias perigosas. “A única questão, para mim, é: esperamos até que um ataque cibernético cause danos enormes e uma biotecnologia cause danos enormes, e então exigimos salvaguardas de monitoramento? Ou somos sábios o suficiente para colocá-las em prática antes de milhões de mortes?”, questionou.
Impacto no mercado de trabalho
Na mesma entrevista, Gates avaliou que a IA provocará uma redução significativa na oferta de empregos humanos. Ele pontuou que a programação já atingiu um nível de confiabilidade capaz de substituir profissionais e previu que o mesmo ocorrerá em contabilidade, serviços jurídicos, televendas e suporte remoto nos próximos anos. A combinação de sistemas que operam 24 horas por dia, em múltiplos idiomas e com forte capacidade de processamento reduz custos operacionais, e Gates rejeitou a premissa de que o mercado criará vagas equivalentes para compensar os postos extintos.
Como contrapartida, o empresário sugeriu a cobrança de um imposto sobre o trabalho executado por IA e robôs, em moldes semelhantes às contribuições destinadas a sistemas previdenciários, como a seguridade social dos Estados Unidos, aplicados quando uma máquina substitui um funcionário. Para ele, o sistema econômico atual privilegia excessivamente o capital em detrimento do trabalho humano.
Benefícios potenciais
Apesar do cenário de alertas, Gates reconheceu que a IA pode expandir o acesso a serviços de saúde, educação e assistência agrícola em nações em desenvolvimento. Ele mencionou o uso de ferramentas voltadas para orientar agricultores na Índia e na África sobre condições climáticas, pragas, sementes e fertilizantes, bem como plataformas de atendimento médico em idiomas pouco atendidos digitalmente. Contudo, o grande desafio apontado é assegurar que esses benefícios cheguem antes ou simultaneamente aos riscos de desemprego, desorganização social, ataques cibernéticos e bioterrorismo.
