O Brasil iniciou os preparativos para ingressar na era da sexta geração da internet móvel, o 6G, enquanto ainda enfrenta lacunas na cobertura e na adoção da tecnologia anterior, o 5G. A preparação para o novo padrão envolve debates regulatórios, como a recente audiência pública realizada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre o futuro leilão da faixa de 6 GHz, voltada para atender às futuras redes.
Dados da Anatel referentes ao primeiro trimestre de 2026 apontam que o sinal de 5G alcançava 68% da população brasileira, deixando quase um terço dos habitantes sem acesso. Um levantamento da consultoria Teleco divulgado em agosto indica que a tecnologia estava presente em 1.737 municípios, o equivalente a 31% das cidades do país, com variações na cobertura mesmo dentro dessas localidades.
Pesquisa e desenvolvimento nacional
Para evitar a dependência exclusiva de importações, o país busca transformar estudos acadêmicos em capacidade industrial. O Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) coordena o projeto Brasil 6G, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Já o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD) conduz o programa Era 6G, financiado por um fundo do Ministério das Comunicações para investigar o uso de inteligência artificial e redes abertas ao longo de três anos.
Segundo Gustavo Correa Lima, diretor de tecnologia e inovação do CPQD, a meta central é garantir que o Brasil atue como produtor e não apenas como consumidor de tecnologia. Marcos Ferrari, presidente da Conexis Brasil Digital, defende a adoção de um modelo semelhante ao leilão do 5G de 2021, caracterizado como não arrecadatório e focado em investimentos.
Metas e aplicações da nova tecnologia
As diretrizes estabelecidas pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) projetam velocidades máximas entre 50 e 200 gigabits por segundo para o 6G, representando de 2,5 a 10 vezes o desempenho de referência do 5G. A latência esperada na transmissão entre celulares e antenas deve variar de 0,1 a 1 milissegundo, comparada ao 1 milissegundo do padrão anterior.
As redes futuras também devem operar como sensores de movimento e integrar inteligência artificial desde a concepção. Samir Vani, diretor de desenvolvimento de negócios da MediaTek na América Latina, destaca a presença da IA desde a origem do sistema. Rick Tsai, CEO da MediaTek, aponta que a união entre antenas terrestres e satélites ampliará a cobertura em áreas remotas, beneficiando robôs industriais, veículos autônomos, monitoramento ambiental, cirurgias remotas e experiências digitais imersivas.
A operadora Vivo, por meio do Grupo Telefónica, integra 35 iniciativas europeias de pesquisa em 6G, abrangendo segurança, automação e inteligência artificial. Atila Branco, diretor de estratégia e evolução de redes da Vivo, projeta o surgimento das primeiras redes comerciais por volta de 2030, com potenciais aplicações na indústria, saúde, educação e agronegócio.
Cenário internacional
No cenário global, a China colocou o 6G entre as prioridades de seu planejamento estratégico para o período de 2026 a 2030. O governo chinês autorizou testes na faixa de 6 GHz em maio, enquanto empresas como Huawei e ZTE desenvolvem infraestruturas integradas a satélites e sistemas de múltiplas antenas, como o GigaMimo.
Nos Estados Unidos, os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 servirão como vitrine para demonstrações iniciais, com previsões de sistemas comerciais a partir de 2029 apontadas pela Qualcomm. Diego Aguiar, diretor da Qualcomm no Brasil, menciona o desenvolvimento tecnológico em colaboração com operadoras e fabricantes. A União Europeia investe ao menos 1,8 bilhão de euros em recursos públicos e privados, e o Japão financia pesquisas acadêmicas e industriais para fortalecer sua posição nas normas globais.
