Autoridades de serviços de inteligência do Brasil informaram uma delegação da França e da Alemanha sobre uma suposta interferência dos Estados Unidos e da Rússia antes das eleições brasileiras. A visita de autoridades europeias ocorreu no início deste mês em Brasília, conforme apuração baseada em fontes e documentos analisados pela agência Reuters.
De acordo com um relatório das reuniões elaborado por um dos participantes, agentes da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) confirmaram a existência de interferência de ambos os países. Os funcionários da Abin relataram que a suposta interferência norte-americana variou de ações judiciais até uma atuação abertamente reconhecida. Contudo, nenhum detalhe foi fornecido sobre a suposta interferência russa.
O primeiro turno das eleições no Brasil foi marcado para este domingo (3), em uma disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Procurado pela Reuters, o Departamento de Estado americano não respondeu aos pedidos de comentário e, anteriormente, negou tentativas de interferência no pleito brasileiro. A Abin e a embaixada da Rússia no Brasil também não se manifestaram. O governo russo já havia negado em ocasiões anteriores ter interferido em eleições de outros países.
Contexto internacional e alinhamentos de Trump
O apoio público do governo de Donald Trump a candidatos de direita ao redor do mundo tem gerado debates sobre a caracterização dessa atuação como interferência estrangeira. Recentemente, os EUA apoiaram aliados ideológicos na Europa e na América Latina, incluindo a oferta de um pacote de ajuda financeira estimado em US$ 40 bilhões para o presidente argentino Javier Milei, e a viagem do vice-presidente americano JD Vance à Hungria para apoiar a tentativa de reeleição do ex-primeiro-ministro Viktor Orbán.
Na França, onde a candidata presidencial Marine Le Pen lidera pesquisas, autoridades manifestaram preocupação e enxergam a eleição brasileira como um sinal de alerta para o pleito francês do próximo ano. Na Alemanha, onde o partido de extrema direita AfD venceu em dois estados no mês passado, o apoio de Washington a essa legenda tem sido alvo de críticas regulares.
Visita da delegação da União Europeia
A delegação francesa e alemã esteve no Brasil entre 9 e 11 de setembro como parte de uma missão da União Europeia. A pauta oficial incluiu a implementação da DSA (Lei de Serviços Digitais) do bloco europeu, que obriga plataformas online a combater conteúdos ilegais — medida criticada pelos Estados Unidos por supostamente prejudicar grandes empresas de tecnologia americanas.
Segundo documentos acessados pela Reuters, os objetivos da viagem também consistiam em preparar respostas coordenadas antes das eleições de 2026. A comitiva francesa contou com representantes da Viginum, órgão de detecção de desinformação estrangeira, e da Arcom, reguladora de mídia. A delegação alemã incluiu membros da Agência Federal de Redes.
A Arcom e a Viginum confirmaram a participação de funcionários na visita. Por sua vez, a Agência Federal de Redes da Alemanha declarou que uma eventual interferência dos EUA nas eleições alemãs não foi debatida nos encontros.
Segurança cibernética e ataques
Um alto funcionário brasileiro da área de segurança cibernética, presente nas reuniões e que falou sob anonimato, afirmou à Reuters que o volume de ataques cibernéticos no Brasil quase dobrou em comparação com 2025. A fonte apontou um crescimento expressivo de invasões e tentativas de phishing direcionadas à Presidência da República, associando diretamente a investida ao contexto eleitoral.
