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Economia

Brasil se consolida na segurança alimentar global, mas custos de insumos ameaçam margens

Com safra estimada em 361,7 milhões de toneladas, Brasil se firma na segurança alimentar global, mas enfrenta desafios com custos de fertilizantes.

Redação•21 de set. de 2026, 03:07
Brasil se consolida na segurança alimentar global, mas custos de insumos ameaçam margens
Imagem: site

Brasil se consolida na segurança alimentar global, mas custos de insumos ameaçam margens

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O mercado global de alimentos voltou a registrar um prêmio de risco relevante nas cotações devido à combinação de eventos climáticos extremos, perturbações logísticas e tensões geopolíticas. Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) apontam que o Índice de Preços de Alimentos subiu para 133,3 pontos em agosto, um acréscimo de 1,9% em relação ao mês de julho. O cenário coincide com projeções do CPC (Centro de Previsão Climática) da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA), que apontam mais de 90% de probabilidade de consolidação de um El Niño de forte intensidade nos últimos meses do ano.

Mesmo diante da volatilidade, o Brasil reforça a capacidade produtiva. A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) estima que a safra brasileira de grãos alcance 361,7 milhões de toneladas. Em paralelo, informações do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) apontam que as exportações do agronegócio somaram US$ 57,85 bilhões entre janeiro e agosto, alta de 9,45% na comparação com igual período de 2025. O grande desafio do setor é transformar essa liderança produtiva em vantagem estratégica permanente, enquanto a dependência de cerca de 85% de fertilizantes importados permanece como um fator limitador de longo prazo.

O papel do Brasil na segurança alimentar mundial

A relevância do agronegócio brasileiro no cenário internacional ultrapassa flutuações conjunturais do clima em nações concorrentes. O país ocupa a liderança mundial na produção e na exportação de soja, açúcar, café, suco de laranja e carne bovina. Ouvida pelo Broadcast Agro, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, a Consultoria Agro do Itaú BBA avalia que essa posição decorre de um processo estrutural, marcado por ganhos contínuos de produtividade, consolidação da segunda safra, adaptação genética ao clima tropical e integração entre lavoura e pecuária.

De acordo com a consultoria:

“Um evento climático lá fora pode até dar um empurrão nos preços e antecipar embarques em uma janela específica, mas não explica participações dessa magnitude. O que acontece nesses momentos é que fica mais visível uma coisa que já era verdade: quando falta oferta em algum lugar do mundo, é para o Brasil que a demanda se volta. O País já funciona como uma espécie de fiador da segurança alimentar global”

Dinâmica geopolítica e o mercado da soja

Apesar da dominância brasileira no fornecimento de oleaginosas, relatórios do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) apontam que a China manteve aquisições expressivas de soja junto aos Estados Unidos nas últimas semanas de agosto, ao mesmo tempo em que os embarques avançavam pelos portos brasileiros. Esse movimento reacende debates sobre a disposição de Pequim de pagar um prêmio para diversificar fontes de abastecimento e reduzir a concentração de compras em uma única origem.

Conforme a análise do Itaú BBA, o comportamento das tradings estatais chinesas traduz uma busca por segurança estratégica durante a entressafra na América do Sul, e não uma perda de competitividade da produção nacional:

“A China aprendeu, nos últimos anos, que depender de uma única origem é caro e esse custo aparece justamente quando o mercado aperta. Ela mantém as duas janelas abertas: compra do Brasil quando a nossa safra está fluindo e volta aos EUA na entressafra sul-americana, que é exatamente o momento em que estamos vivendo agora”

A consultoria destaca que grande parte das compras nos EUA foi realizada por companhias estatais, no contexto do acordo comercial, e não por esmagadoras privadas, que continuam penalizadas pela tarifa adicional de 10% sobre produtos norte-americanos. Samuel Mertens, analista de commodities da Agrinvest Commodities, acrescenta:

“Esse acordo tem um objetivo muito mais geopolítico e comercial do que puramente estratégico para a soja, pois a China vem, nos últimos 10 anos, reduzindo sua dependência da soja americana”

Dupla exposição e impacto nos custos do produtor

Enquanto o setor exportador apresenta forte desempenho, a estrutura de custos no campo permanece vulnerável às oscilações de insumos importados. O Brasil consome cerca de 8% da produção mundial de fertilizantes e importa aproximadamente 85% desse volume, transferindo para as lavouras de soja e milho os efeitos das cotações internacionais e das moedas estrangeiras.

Para o Itaú BBA, essa dinâmica gera uma dupla exposição direta sobre a rentabilidade do produtor rural:

“A exposição é alta, por dois canais ao mesmo tempo: o preço internacional do insumo e o câmbio. Quando o dólar sobe, o adubo encarece em reais, mesmo que a cotação lá fora fique estável. É uma dupla exposição que o produtor não consegue neutralizar só com manejo. O melhor termômetro dessa exposição é a relação de troca. Em 2026, ela piorou de forma generalizada: na soja, a tonelada de MAP saiu de algo como 25 a 30 sacas em 2025 para 30 a 35 sacas; no milho, a mesma tonelada passou de 40 a 50 para 50 a 60 sacas. Isso significa perda direta de poder de compra do produtor”

Tomás Pernias, analista de inteligência de mercado da StoneX, aponta que a janela de compras para a safra principal de soja está quase encerrada, concentrando as atenções na adubação do milho de segunda safra:

“Como o plantio da soja está cada vez mais perto, a janela de importação para os fertilizantes usados na soja está praticamente encerrada. Para o milho, ainda estamos no momento de alta do consumo de reposição e recomposição de estoques de nitrogenados no Brasil. Como a safrinha acontece no ano que vem, é no segundo semestre que as importações de nitrogenados costumam ganhar ritmo. Uma escalada de conflito no Oriente Médio, aumento do petróleo, e maiores custos com gás natural podem afetar, ainda assim, o custo dos insumos da safrinha”

Mercado interno e alocação de recursos

Em meio ao crescimento das commodities voltadas à exportação, lavouras destinadas ao consumo interno, a exemplo de arroz e feijão, registram redução de área em regiões tradicionais. Samuel Mertens analisa que o movimento não representa um conflito direto entre cadeias:

“Não vejo esse movimento como um conflito entre um Brasil agroexportador e outro voltado ao mercado doméstico. Ele é, principalmente, resultado da alocação racional de terra e capital: o produtor direciona recursos para as culturas que oferecem maior retorno ajustado ao risco. Se queremos preservar a oferta de arroz e feijão, o caminho não é obrigar o produtor a plantar essas culturas, mas torná-las economicamente competitivas”

A consolidação do país como pilar da segurança alimentar global reflete ganhos tecnológicos e de escala obtidos ao longo de décadas. Contudo, a continuidade do crescimento das safras e a preservação das margens financeiras dos produtores continuam condicionadas à capacidade de gerenciamento de custos diante da volatilidade dos insumos internacionais.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/brasil-se-firma-como-fiador-alimentar-mas-dependencia-de-insumos-ameaca-margens/

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