Bebês e crianças com menos de 5 anos figuram entre os grupos mais vulneráveis aos reflexos das mudanças climáticas, intensificadas pelo Super El Niño, período com previsão de duração até o início de 2027. Especialistas apontam que a geração atual e as próximas enfrentarão os impactos por mais tempo que qualquer outra, especialmente no que tange às enfermidades respiratórias. O tema ganha destaque no 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado entre esta quinta-feira (1º) e o próximo sábado (3), em São Paulo, reunindo médicos e profissionais do Brasil e do exterior.
O evento conta com o painel “Fatores ambientais e saúde infantil”, na Mesa Meio Ambiente, com moderação do pesquisador William Cabral, do Instituto Pensi. A programação debate a influência da poluição, do calor extremo e das alterações climáticas na proliferação de infecções e doenças respiratórias. Cabral conduziu um estudo publicado no Journal of Global Health, o qual aponta que, embora o frio seja comumente associado a problemas respiratórios, o calor também colabora para o aumento de mortes de menores de 5 anos no Brasil.
A pesquisa aponta a primavera como a estação com maior volume de internações hospitalares infantis, enquanto os dias secos concentram uma fatia expressiva dos casos graves. O levantamento utilizou inteligência artificial para cruzar dados do Sabará Hospital Infantil, instituição que atende cerca de 100 mil crianças anualmente — sendo aproximadamente 50% com quadros respiratórios. Foram analisadas mais de 24 mil consultas e quase 3 mil internações.
Segundo William Cabral, o objetivo é compreender a influência ambiental no atendimento pediátrico. “Essas crianças que foram expostas a dias mais secos também estavam associadas aos casos de internação por doença respiratória. Para os casos de bronquiolite, os dias com os índices de ozônio mais altos estavam associados às internações, bem como os dias mais úmidos. E para as infecções respiratórias foram associadas aos dias com temperaturas mais baixas”, declarou o pesquisador, que coordena o Núcleo de Geoprocessamento e Ciências de Dados.
O gerente médico do Sabará Hospital Infantil, Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira, acrescenta que as altas temperaturas elevam a concentração de poluentes e partículas em suspensão no ar, o que agrava condições pré-existentes, a exemplo da asma.
“O calor em si, o aumento da temperatura, assim como outras condições que vêm associadas ao calor, como o aumento da circulação de elementos particulados e o aumento da concentração de poluentes, normalmente atua no sistema respiratório, fragilizando o sistema respiratório. Tudo isso vai fazer com que a taxa de internação de crianças tenda a aumentar durante esses períodos com altas temperaturas, principalmente se vier acompanhado de umidade do ar mais baixa”, afirmou o infectologista.
Vulnerabilidade social e ilhas de calor
Especialistas ressaltam que os riscos não afetam todas as regiões de forma homogênea. Na capital paulista, crianças residentes em periferias ou próximas a áreas de intensa circulação de veículos enfrentam maiores perigos devido à concentração de poluentes e à formação de “ilhas de calor” provocadas pela escassez de arborização.
“Nem todas as crianças dentro de uma determinada área, dentro de uma determinada cidade, vão estar expostas do mesmo jeito. Pessoas que moram perto de áreas de grande circulação de veículos também têm um risco aumentado por conta da própria concentração de poluentes”, pontua o Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira.
O pesquisador William Cabral complementa que o pior desfecho ocorre em populações socioeconomicamente vulneráveis. “É aquela combinação entre o prejuízo do clima, a condição socioeconômica e o acesso ao serviço de saúde que não consegue dar suporte e evitar o óbito de uma criança, por exemplo”, detalha.
Impacto em doenças infecciosas e uso de inteligência artificial
Além das complicações respiratórias, as alterações no regime de chuvas, inundações e secas provocam desequilíbrios ecológicos que favorecem a proliferação de vetores transmissores de enfermidades como dengue, zika, chikungunya e malária.
O congresso também aborda o emprego da inteligência artificial para antecipar crises. William Cabral destaca o projeto voltado a prever a demanda por atendimentos e internações. A meta é viabilizar um sistema de gerenciamento hospitalar preparado para momentos de poluição crítica e condições climáticas severas. Já o Dr. Francisco Ivanildo de Oliveira lembra a disponibilidade da vacina contra a dengue para o público pediátrico e reforça orientações preventivas:
- Evitar atividades externas nos horários de temperaturas mais elevadas.
- Eliminar recipientes que possam acumular água e servir de criadouros para mosquitos transmissores de arboviroses, especialmente em períodos de armazenamento humano de água.
