Foram necessárias algumas décadas para que os cartões paulatinamente derrubassem a hegemonia do papel-moeda na carteira do consumidor. Nesse processo, as bandeiras se firmaram como uma espécie de "ponte" segura e conveniente entre o comprador, o banco e o comerciante. Na próxima Era dos pagamentos digitais, porém, um quarto elo entrará na jogada e promete revolucionar o modelo de negócios do setor: os agentes de inteligência artificial (IA).
Na corrida pela vanguarda do comércio agêntico, as operadoras de cartão querem ser mais que apenas "plásticos no bolso" e trabalham para se firmar como a camada invisível onde as "máquinas" vão efetuar transações. No futuro, um assistente de IA vai comparar preços, escolher a melhor opção e concluir a compra de forma completamente autônoma.
Desafios e o Cronograma da Autonomia
Nos últimos meses, Mastercard, Visa e Elo avançaram nos primeiros passos concretos na disputa para intermediar a nova cadeia. No entanto, executivos da indústria consultados pelo Broadcast admitem incerteza sobre o cronograma para retirar o modelo agêntico da fase experimental e torná-lo tão trivial e difundido quanto fazer um Pix.
"Acredito que a autonomia total – do tipo em que você só percebe a compra quando o produto chega à sua casa – ainda vai levar um tempo. Isso se deve a uma questão cultural, à necessidade de construir confiança e aos próprios desafios de segurança", reconhece o vice-presidente de tecnologia da Elo, Eduardo Merighi.
Os desafios começam antes da decisão de compra. O varejo acostumou o consumidor a etapas particulares no e-commerce: buscar, escolher, comprar e autorizar. Delegar isso a um robô exige um rompimento de paradigma cultural. Historicamente, mudanças no segmento demoram cerca de uma década para atingir escala global, como ocorreu com a tarja magnética e o pagamento por aproximação. No entanto, o diretor digital da Mastercard, Pablo Fourez, nota que a Era da IA encurta prazos, com ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude transformando experiências digitais rapidamente.
Investimentos em Comércio Agêntico
O comércio por agentes de IA para consumidores (B2C) deve movimentar entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente até 2030, segundo a McKinsey & Company. O sucesso do Pix posiciona o Brasil como um mercado promissor. Assim, as bandeiras ampliam investimentos em IA.
A Elo, controlada por Banco do Brasil, Bradesco e Caixa, expandiu para 5 mil clientes um agente de IA com a agência Decolar. A ferramenta realiza a jornada de compra de passagens via WhatsApp, embora o usuário ainda intervenha na etapa final. Já a Visa trouxe ao Brasil um programa para certificar emissores para operações feitas por agentes de IA, atualizando sistemas existentes como APIs de tokenização e autenticação biométrica. Em junho, a Visa anunciou parceria com a OpenAI para habilitar o comércio agêntico, inicialmente nos EUA.
A Mastercard tem concentrado esforços no Agent Pay, infraestrutura voltada para segurança e autenticação no comércio agêntico. A credenciadora estendeu o conceito para o Agent Pay For Machines, permitindo pagamentos corporativos autônomos conforme orçamentos pré-definidos, além de lançar uma solução que adapta sites de lojistas para leitura por agentes de IA.
