As transformações geopolíticas e os conflitos armados em andamento na Ucrânia e no Oriente Médio devem gerar consequências de longo prazo para os fluxos de comércio em todo o mundo. A avaliação foi feita por Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), em entrevista concedida à Reuters na quinta-feira (15 de outubro).
Segundo a dirigente, as empresas estão buscando se proteger contra choques futuros diante desse cenário. No Oriente Médio, as atividades comerciais registraram uma retração acentuada em decorrência da guerra — mesmo com a adoção de rotas alternativas — e a recuperação total deve demorar, com a possibilidade de que algumas dessas mudanças estruturais se tornem definitivas.
A OMC projeta uma retração de 17% nas exportações deste ano, enquanto as importações devem apresentar uma queda de aproximadamente 15%. Analistas do setor privado estimavam uma retomada após o término dos confrontos e a reabertura do Estreito de Ormuz, apontado como um caminho comercial mais econômico. Contudo, a recorrência dos conflitos evidenciou a urgência de planejamento de contingência e diversificação, fazendo com que desvios de rotas passem a ser mantidos de forma permanente, conforme destacou a chefe da organização.
Okonjo-Iweala pontua que a tendência de diversificação em diferentes nações e territórios deve prosseguir, impulsionada pelas sucessivas perturbações comerciais e bélicas, além da imposição de uma expressiva onda de tarifas promovidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para a diretora-geral, as cadeias de suprimentos sofreram reconfigurações profundas, com lideranças empresariais demonstrando inovação na busca por caminhos alternativos, ainda que mais caros.
A diretora também ressaltou que o comércio regional tende a continuar em expansão, citando como exemplo o potencial dos países africanos de impulsionar o crescimento econômico e o intercâmbio comercial por meio do fortalecimento das trocas dentro do próprio continente.
Recentemente, a OMC revisou para cima a estimativa de crescimento do comércio global de mercadorias. A expansão no volume comercial mundial em 2026 foi projetada em 3,9%, superando a previsão inicial de 1,9% divulgada em março. O resultado é atribuído à alta demanda por produtos ligados à inteligência artificial, fator que tem ajudado a contrabalançar os reflexos negativos das interrupções provocadas pelo agravamento da guerra no Oriente Médio.
Apesar da revisão positiva, Okonjo-Iweala alertou que o cenário futuro continua incerto devido à persistência dos conflitos, às barreiras tarifárias e aos riscos de arrefecimento ou colapso no ritmo de crescimento da inteligência artificial. Conforme pontuou a chefe da OMC, o impulso gerado pela tecnologia acaba mascarando tendências desfavoráveis em outros setores do comércio.
