Empresas chinesas de tecnologia vêm transformando o mercado global, superando marcas ocidentais que antes dominavam setores de eletrônicos e produtos de consumo. Um exemplo citado é a GoPro, que reinava no setor de câmeras de ação em 2015, mas hoje enfrenta dificuldades de sobrevivência diante da concorrência das chinesas DJI e Insta360. Entradas no mercado em 2019 e 2021, respectivamente, essas duas marcas concentram atualmente mais de 90% das vendas globais de câmeras inteligentes portáteis.
O avanço não se restringe às câmeras. No segmento de carros elétricos, montadoras como BYD e Xpeng comercializaram quase dois terços de todos os veículos elétricos vendidos no ano passado, ultrapassando concorrentes estabelecidos como a Tesla. No mercado de aspiradores robóticos, companhias da China lideram globalmente, enquanto a pioneira americana iRobot enfrenta obstáculos para competir.
Segundo Chris Pereira, empreendedor canadense e autor com atuação no país asiático, a reputação de produtos baratos fabricados na China deu lugar a uma combinação de preços acessíveis e alta qualidade. Atualmente, mais da metade dos novos produtos globais de tecnologia para o consumidor vêm de fornecedores chineses.
Especialistas apontam múltiplos fatores para a vantagem competitiva das empresas chinesas:
- Intensa concorrência doméstica em centros como Shenzhen, Hangzhou e Xangai;
- Cadeias de suprimentos altamente integradas;
- Cultura empresarial voltada à ação e rápida resolução de problemas;
- Automação industrial avançada e uso estratégico de inteligência artificial na manufatura;
- Agilidade regulatória e custos de produção significativamente menores.
Joey Cheng, fundador da Prolo Ring, destaca que a cadeia de suprimentos de Shenzhen é essencial para reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de produtos, permitindo que startups coloquem itens no mercado rapidamente.
Preocupações com privacidade e segurança
Apesar da alta adesão dos consumidores, a expansão gera desconfiança. Pesquisas apontam que mais de 90% dos europeus não confiam dados a empresas chinesas de tecnologia, enquanto cerca de 80% desconfiam das americanas, sendo os alemães os mais céticos. O escrutínio envolve riscos de segurança, suspeitas de espionagem em dispositivos conectados e regulamentações de proteção de dados na União Europeia e nos Estados Unidos.
Chris Pereira avalia que as marcas chinesas precisam pagar um "prêmio de confiança", compensando o déficit por meio de competitividade em preço e produto, além de estabelecer presença física no exterior, como a nova fábrica da BYD na Hungria.
Desafios geopolíticos e novas tendências
Governos ocidentais têm adotado medidas restritivas e tarifas. Em julho, o governo Trump proibiu a importação de robôs humanoides fabricados fora dos EUA, afetando empresas como a chinesa Primebot. Países europeus também avaliam ampliar barreiras comerciais.
Para Pereira, as tarifas devem acelerar duas direções para as companhias chinesas: a localização da produção em outros países para gerar confiança local e o foco em competir diretamente no segmento premium, desafiando marcas ocidentais de primeira linha.
