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Economia

Consumo de carne na Argentina atinge mínima de 20 anos enquanto exportações aos EUA triplicam

O consumo de carne bovina na Argentina caiu para 46,3 kg por habitante em julho, o menor nível em 20 anos, enquanto as exportações para os EUA triplicaram sob o governo Milei.

Redação•31 de ago. de 2026, 11:56
Consumo de carne na Argentina atinge mínima de 20 anos enquanto exportações aos EUA triplicam
Imagem: site

Consumo de carne na Argentina atinge mínima de 20 anos enquanto exportações aos EUA triplicam

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A carne bovina, símbolo da identidade argentina e presença tradicional na mesa do país, está se tornando cada vez mais rara no prato dos consumidores. O consumo anualizado caiu para 46,3 quilos por habitante em julho, o menor nível em mais de duas décadas, segundo a Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina (CICCRA). O resultado representa uma queda de 9,4% em 12 meses, ou 4,8 quilos a menos por pessoa.

O paradoxo da economia sob Javier Milei

O dado sintetiza uma das contradições da economia argentina sob Javier Milei. O presidente conseguiu reduzir drasticamente a inflação, recuperar o equilíbrio das contas públicas e recolocar a atividade em trajetória de crescimento. Mas a melhora dos indicadores macroeconômicos não se converteu na mesma velocidade em poder de compra para as famílias. A inflação acumulada em 12 meses ficou em 33,8% em julho, muito abaixo dos níveis registrados no início do governo Milei, embora tenha voltado a acelerar no mês, para 2,1%, interrompendo uma sequência de três meses de desaceleração.

A carne, entretanto, subiu mais do que a média dos preços e passou a disputar espaço com alternativas mais baratas, como frango e carne suína. O encarecimento ocorre ao mesmo tempo em que há menos animais disponíveis para o abate e uma parcela maior da produção está sendo direcionada ao mercado externo.

Redução da oferta no mercado interno

Entre janeiro e julho, a oferta destinada ao mercado doméstico somou cerca de 1,2 milhão de toneladas, uma redução de 163,4 mil toneladas, ou aproximadamente 12%, em relação ao mesmo período de 2025. A queda está diretamente relacionada à diminuição do número de animais abatidos. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, foram abatidos 7,09 milhões de bovinos, 9,8% menos que no mesmo período de 2025.

A retração é ainda maior quando comparada ao pico de abates de 2023, quando pecuaristas reduziram seus rebanhos devido a condições adversas de mercado e problemas climáticos. Atualmente, há uma mudança na composição do rebanho: o abate de fêmeas vem caindo mais rápido que o de machos, sinal de que os produtores estão retendo vacas e novilhas para recompor o plantel. Como o setor trabalha em ciclos longos, essa retenção diminui a oferta de carne no curto prazo, elevando os preços.

Expansão das exportações e a relação com os EUA

Enquanto os argentinos consomem menos, o setor exportador prospera. No primeiro semestre, a Argentina exportou 411,7 mil toneladas equivalentes a carcaça, alta de 10% sobre o mesmo período de 2025. A receita saltou 44,7%, atingindo US$ 2,2 bilhões. A China seguiu como principal destino (53%), mas os embarques para os Estados Unidos triplicaram, chegando a 54,15 mil toneladas no semestre.

Essa mudança é impulsionada pela relação política entre Milei e Donald Trump. Em fevereiro, os países assinaram um Acordo de Comércio e Investimentos Recíprocos. O governo argentino anunciou que os EUA elevariam em 80 mil toneladas a carne com tratamento tarifário preferencial em 2026. Em agosto, o governo Trump ampliou novamente as importações em 300 mil toneladas de recortes de carne para tentar reduzir preços internos nos supermercados americanos, o que favorece frigoríficos argentinos mas pressiona a oferta interna na Argentina.

Os desafios do modelo econômico argentino

Milei defende que seu programa de ajuste fiscal e desregulamentação está funcionando, citando a queda da inflação anual de 289% em 2024 para 33,8% em julho e o avanço de 2,7% na atividade econômica em junho. Contudo, o Financial Times destaca que milhões de argentinos recorrem ao crédito para sustentar o consumo, com a inadimplência das famílias atingindo 16,3%.

Conforme análise do El País, a economia funciona em duas velocidades: setores exportadores, de mineração e energia estão fortes, enquanto consumo e indústria sofrem. A carne bovina exemplifica essa divisão. Exportar gera dólares essenciais para as reservas internacionais, mas afasta o produto do consumidor local. O consumo de 46,3 quilos por habitante revela que a normalização econômica ainda não restabeleceu o padrão de consumo perdido, afetando até o tradicional asado, símbolo da identidade nacional.

Fonte: https://veja.abril.com.br/economia/consumo-de-carne-na-argentina-cai-a-minima-em-20-anos-exportacoes-aos-eua-triplicam/

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