Os Correios registraram prejuízo líquido de R$ 5,5 bilhões no primeiro semestre de 2025, um aumento de mais de 30% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o rombo foi de R$ 4,2 bilhões. A situação financeira da estatal, que já vinha sendo monitorada por especialistas, intensificou o debate sobre o futuro da empresa e a necessidade de reformas estruturais.
Crise estrutural e modelo de negócios obsoleto
Segundo Marcus Pestana, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), o problema dos Correios não é pontual ou resultado de erros de gestão isolados, mas sim uma crise estrutural do modelo de negócios. "Não é uma crise episódica, pontual, não é uma questão momentânea por um erro ou outro. É uma questão muito mais estrutural do modelo de negócios", afirmou.
Pestana destacou que a empresa historicamente dependia do monopólio de cartas e telegramas, mas esse modelo perdeu relevância com o avanço do e-mail e do WhatsApp. "Na época do WhatsApp e do e-mail, ninguém mais manda carta, ninguém mais manda telegrama. O mundo mudou", declarou. O especialista também citou o Banco Postal como exemplo de iniciativa que, apesar de relevante em um momento anterior, não resistiu à concorrência das fintechs e dos bancos digitais.
Recursos públicos e impactos orçamentários
O governo anunciou um aporte de R$ 6 bilhões no orçamento de 2027 para os Correios, como parte de um acordo de empréstimos firmado no fim de 2025. A medida, segundo o governo, visa garantir maior estabilidade nas negociações com clientes e fornecedores. No entanto, Pestana alertou para o impacto desse aporte no orçamento público, lembrando que o Tesouro Nacional já avalizou um empréstimo de R$ 12 bilhões para a estatal.
"Se os Correios não pagarem, o Tesouro Nacional, ou seja, eu, você, todos nós, vamos ter que pagar essa conta", afirmou. O especialista ressaltou que, em um cenário de aperto orçamentário, cada real alocado nos Correios representa um custo de oportunidade para áreas prioritárias como saúde, educação e segurança pública. "Nós estamos colocando R$ 6 bilhões nos Correios. Esses R$ 6 bilhões podiam ir para a educação de qualidade, para a melhoria do SUS e para o Sistema Único de Segurança Pública para melhorar o combate ao crime organizado", declarou.
Perspectivas de reestruturação e desafios
Embora reconheça a boa-fé da direção dos Correios no plano de reestruturação anunciado, Pestana se mostrou pessimista quanto às chances de recuperação da empresa. Ele apontou que, no segmento de encomendas — principal frente de atuação atual da estatal —, há diversas empresas privadas operando com custos menores e maior eficiência.
"Eu não vejo como os Correios superarem, com toda a reestruturação que de boa-fé a direção propõe. Não é uma questão de incompetência ou de erro de gestão aqui e ali. É uma questão de obsolescência tecnológica", concluiu.
