A economia da Argentina ganhou destaque no debate presidencial do segundo turno das eleições brasileiras. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou o candidato Flávio Bolsonaro (PL) sobre sua proximidade com Javier Milei, perguntando se pretendia replicar no Brasil a política econômica adotada pelo governo argentino.
O questionamento ocorreu após Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, apontar a gestão de Milei como inspiração para medidas de desburocratização e redução de impostos. Os dados oficiais, no entanto, mostram um cenário econômico marcado por contrastes entre a recuperação de indicadores macroeconômicos e o agravamento de problemas sociais.
PIB cresce, mas mostra perda de ritmo e consumo fraco
Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), o Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina teve alta de 2,3% no primeiro trimestre de 2026 e de 2% no segundo trimestre, em comparação com os mesmos períodos do ano anterior.
Apesar do resultado positivo no acumulado anual, houve perda de fôlego a curto prazo. Entre o primeiro e o segundo trimestre de 2026, já com os ajustes sazonais, o PIB recuou 0,6%. O consumo privado caiu 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos encolheram 0,8%. Na comparação anual, a formação bruta de capital fixo registrou queda de 11,1%.
A expansão econômica tem sido desigual. No primeiro trimestre, setores como agropecuária, pesca, mineração e intermediação financeira impulsionaram o resultado, enquanto a indústria de transformação caiu 1,7% e o comércio varejista recuou 0,3%. No segundo trimestre, as atividades exportadoras lideraram o avanço — com altas de 44,7% na pesca, 16,4% na mineração e 6,9% na agropecuária —, enquanto a indústria manufatureira teve nova retração, de 2,1%.
Queda da inflação e aumento da pobreza
O governo de Javier Milei aponta a desaceleração da inflação como um de seus principais resultados. O índice oficial de preços, que alcançou cerca de 290% em 12 meses, recuou para aproximadamente 30% nos primeiros dois anos da gestão, impulsionado por um forte ajuste fiscal, cortes de gastos e eliminação de subsídios. Em agosto de 2026, a inflação mensal atingiu 1,7%, o menor patamar desde junho de 2025.
Contudo, a melhora inicial nos índices de pobreza perdeu força em 2026. A proporção de argentinos em situação de pobreza passou de 28,2% no segundo semestre de 2025 para 32,3% no primeiro semestre de 2026, conforme levantamento do Indec em 31 aglomerados urbanos que abrange 9,7 milhões de pessoas. Foi a primeira alta do indicador em dois anos, após ter atingido 52,9% em 2024.
A extrema pobreza também subiu de 1,9 milhão (6,3% da população pesquisada) para 2,2 milhões de pessoas (7,5%), grupo formado por aqueles cuja renda não supre o custo de uma cesta de alimentos com o mínimo de energia e proteína.
Desemprego e dificuldades industriais
O mercado de trabalho reflete os limites da recuperação econômica. A taxa de desemprego alcançou 7,9% no segundo trimestre de 2026, superando os 7,6% do mesmo período de 2025. O índice representa cerca de 1,8 milhão de desempregados nos aglomerados monitorados, além de uma população economicamente ativa que conta com cerca de metade dos trabalhadores na informalidade.
O número de empregadores com funcionários registrados na previdência também diminuiu. Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT) apontam uma queda de 512,357 em novembro de 2023 para 480,067 em julho de 2026, representando uma redução de 6,3% e o 18º mês consecutivo de baixa. Entidades empresariais ressaltam que o consumo enfraquecido, custos de energia e restrições de crédito pressionam as pequenas e médias empresas.
Além disso, o Centro de Economia Política Argentina (CEPA) indicou que as importações de bens de consumo subiram 34,7% no primeiro semestre de 2026 ante o mesmo período de 2023, período em que a produção industrial registrou queda de 12%. Custos elevados e o endividamento das famílias, segundo a União Industrial Argentina e a Confederação Argentina da Média Empresa, continuam limitando a atividade fabril e o consumo doméstico.
Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/10/18/como-esta-a-economia-da-argentina.ghtml
