A ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) enfrenta um cenário crítico de escassez de recursos que coloca em risco a prestação de serviços humanitários voltados a refugiados em diversas regiões do planeta. O alerta foi emitido nesta segunda-feira (12) pelo alto-comissário da agência, Barham Salih, durante pronunciamento na reunião do comitê executivo da instituição, realizada em Genebra, na Suíça.
Conforme relatado por Salih, a diminuição nas doações vindas de países benfeitores tem impulsionado cortes operacionais que não podem mais ser supridos por meio de medidas de contenção de despesas. Os dados apresentados indicam que, até o dia 9 de outubro, a entidade assegurou US$ 3 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para o custeio de suas operações em 2026, montante que representa 35% da meta estipulada. Para o ano de 2027, a projeção atual aponta para a arrecadação de cerca de US$ 2,68 bilhões, embora o quadro possa sofrer alterações após a realização de uma conferência de doadores agendada para dezembro.
O déficit orçamentário se manifesta em um contexto de deslocamento forçado em patamares recordes globalmente, além de ser precedido por reduções na ajuda internacional promovidas por nações como os Estados Unidos na gestão do presidente Donald Trump.
Cortes de pessoal e reestruturação
Diante do aperto financeiro, a ACNUR executou uma das maiores reestruturações de sua trajetória. A partir de 2024, o quadro de colaboradores encolheu de 20 mil para um patamar pouco abaixo de 12 mil trabalhadores. A administração da agência destacou o esforço para blindar as ações na linha de frente, direcionando os cortes de pessoal para a sede em Genebra e para os escritórios regionais.
De acordo com o alto-comissário, 88% do efetivo segue atuando fora da sede central. Além disso, 95% dos profissionais encarregados de tarefas de proteção — a exemplo de cadastramento de refugiados, suporte jurídico e busca por alternativas duradouras, como o repatriamento seguro aos territórios de origem — foram mantidos em funções de campo.
Serviços humanitários afetados
Os reflexos da falta de verbas já recaem sobre programas assistenciais essenciais em diferentes nações:
- Sudão: O déficit orçamentário põe em risco o atendimento médico de alta complexidade, o apoio jurídico e o suporte psicológico destinado a mais de 30 mil pessoas que sobreviveram a episódios de violência sexual vinculada ao conflito.
- Chade: Atividades voltadas a milhares de menores de idade desacompanhados, separados de seus familiares ou com demandas específicas de proteção encontram-se ameaçadas.
- Etiópia: O cadastramento de dezenas de milhares de refugiados originários do Sudão do Sul e da Eritreia precisou ser paralisado.
Salih enfatizou que a diminuição dos aportes financeiros atinge um patamar crítico onde o sistema perde não apenas volume, mas sua própria eficácia de amparo. “Chega um momento em que uma eficiência maior não consegue compensar a redução de recursos. Quando o financiamento cai abaixo desse ponto, as consequências não são abstratas: são sentidas pelas pessoas que dependem dessa assistência”, declarou.
