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Economia

Crise de moradia na Espanha: por que país enfrenta déficit habitacional após boom de construções

A Espanha enfrenta uma grave crise de habitação marcada por déficit de moradias, disparidade entre preços e salários e protestos populares.

Redação•03 de out. de 2026, 21:30
Crise de moradia na Espanha: por que país enfrenta déficit habitacional após boom de construções
Imagem: site

Crise de moradia na Espanha: por que país enfrenta déficit habitacional após boom de construções

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A Espanha enfrenta atualmente uma grave crise de moradia que tem gerado protestos e colocado o acesso à habitação no centro do debate público. Milhares de manifestantes foram às ruas em toda a Espanha em um sábado exigindo maior proteção aos inquilinos, após o governo não conseguir aprovar no parlamento, na sexta-feira (2/10), uma legislação emergencial sobre habitação.

O descontentamento popular ganhou força após o caso da aposentada Maricarmen Abascal, de 87 anos, cuja retirada de maca por paramédicos de seu apartamento no centro de Madri — onde morou de aluguel por setenta anos — comoveu o país. Após celebrar um acordo com a empresa proprietária do imóvel, Abascal poderá voltar para casa, mas o incidente intensificou as discussões sobre o tema.

Dados da Fundação de Fomento de Estudos Sociais e Sociologia Aplicada (FOESSA) indicam que, em 2024, uma em cada quatro famílias espanholas afirmava ter problemas para conseguir ou manter sua moradia. No caso dos jovens, o Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha (INE) informou em abril que 47,3% dos espanhóis com 26 a 34 anos continuam morando com os pais devido à impossibilidade de comprar ou alugar um imóvel frente aos altos custos.

A reviravolta do setor imobiliário

Especialistas apontam que a situação atual contrasta fortemente com o período entre 1997 e 2008, quando a Espanha construiu cerca de cinco milhões de casas e apartamentos, o dobro da demanda de mercado da época. Carme Trilla, presidente da fundação sem fins lucrativos Hàbitat3, explica que o excesso de construções daquela década gerou a impressão de que o país havia edificado demais.

Jorge Galindo, diretor de Política Econômica da Esade, aponta que, até 2008, a construção ocorria em ritmo superior ao de lares formados, impulsionada por crédito farto sem critérios racionais. Contudo, a crise financeira iniciada nos Estados Unidos após a quebra do Lehman Brothers estourou a bolha imobiliária espanhola, encerrou o crédito farto e provocou a queda nos preços.

O professor de economia José García Montalvo, da Universidade Pompeu Fabra, pontua que a construção despencou de quase 14 residências por 1.000 habitantes para duas por 1.000 habitantes. Atualmente, o Banco da Espanha aponta um déficit habitacional de cerca de 750 mil residências, número que pode superar um milhão nos próximos dois anos caso medidas não sejam tomadas.

Segundo García Montalvo e a professora Taltavull de la Paz, da Universidade de Alicante, o setor de construção civil foi dizimado pela crise e conta com poucas empresas construtoras remanescentes, tornando a recuperação lenta frente às 90 mil residências anuais edificadas atualmente.

Crescimento populacional e impacto nos preços

Enquanto a construção desacelerou, a formação de lares aumentou desde 2021, impulsionada sobretudo pela imigração procedente da Colômbia e da Venezuela. Galindo destaca que são criados 250 mil novos lares líquidos anualmente, enquanto o país constrói apenas um terço desse volume, gerando forte pressão sobre os preços.

Dados do INE revelam que, desde 2015, os preços de venda e aluguel subiram 80%, enquanto os salários dos trabalhadores aumentaram apenas 30%. Em algumas cidades, o aluguel médio alcança o equivalente a R$ 7 mil por mês, correspondendo a 98,7% do salário médio dos jovens.

O papel dos fundos de investimento e do turismo

O debate público também envolve a atuação de fundos de investimento e do aluguel de temporada. Jaime Jover, porta-voz do Sindicato das Inquilinas e Inquilinos de Sevilha, aponta que fundos abutres aquecem o mercado com grandes compras e revendas com preços mais altos. Por outro lado, García Montalvo argumenta que esses fundos detêm uma parcela minúscula de cerca de 5% do mercado, sendo a maioria das residências alugadas pertencente a pequenos proprietários que possuem uma ou duas casas — totalizando cerca de 2,4 milhões de espanhóis, segundo o Observatório do Aluguel.

Adicionalmente, o crescimento do turismo afeta a oferta. Em 2025, a Espanha recebeu 96,8 milhões de visitantes estrangeiros, um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior, consolidando-se como o segundo país mais visitado do mundo atrás da França, conforme dados da ONU Turismo. Carme Trilla aponta que parte do parque imobiliário é direcionada ao aluguel turístico, pressionando ainda mais o mercado.

Residências vazias e estatísticas de despejo

Sobre os 3,8 milhões de residências vazias apontadas pelo INE, Jorge Galindo esclarece que a maioria fica em municípios de onde a população migrou devido à falta de empregos e oportunidades.

Em relação aos despejos, dados do Conselho Geral do Poder Judiciário mostram uma queda de 39.096 casos em 2021 para 24.520 em 2025, com 45 despejos diários registrados no primeiro trimestre de 2026. Contudo, especialistas como García Montalvo alertam que a estatística esconde o agravamento da crise, uma vez que inquilinos de maior renda, como nômades digitais, evitam inadimplência, enquanto imigrantes, jovens e famílias monoparentais enfrentam barreiras severas para acessar o mercado.

Diante da repercussão do caso Maricarmen e dos protestos, o governo de Pedro Sánchez anunciou medidas como a suspensão de determinados despejos até 2030 e a prorrogação de contratos de aluguel, embora as propostas não tenham sido aprovadas pelo Congresso.

Fonte: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/10/03/por-que-a-espanha-que-construia-casas-demais-vive-hoje-uma-grave-crise-de-moradia.ghtml

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