A onda de protestos que atinge a França, marcada por escolas bloqueadas e paralisações de servidores públicos, evidencia uma dificuldade crescente de financiar o Estado de bem-estar social. O cenário é agravado pelo crédito mais caro, pela pressão sobre os gastos e pela paralisia política, fatores que podem favorecer a candidata da direita radical Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, líder nas pesquisas recentes para a eleição presidencial marcada para abril de 2027.
Centenas de escolas fecharam devido à mobilização estudantil, e dezenas sofreram danos. Os alunos protestam contra instalações deterioradas e a falta de professores, enquanto os servidores públicos se mobilizam contra propostas de congelamento salarial. Apesar de terem reivindicações distintas, os movimentos convergem na resistência à perda de qualidade dos serviços e às restrições orçamentárias. No entanto, preservar tais serviços exige recursos que o governo tem cada vez mais dificuldade de obter.
Impacto fiscal e econômico
O envelhecimento da população pressiona os gastos públicos. Dados do instituto oficial de estatística francês, o Insee, indicam que o déficit primário fechou 2025 em cerca de 3% do PIB, ao passo que a dívida pública alcançou 119% do PIB no fim do segundo trimestre de 2026. Como resultado, o financiamento da dívida estatal ficou mais oneroso.
Em 2 de outubro, a diferença entre os juros dos títulos franceses e alemães de dez anos atingiu 1,55 ponto percentual, conforme dados da FactSet publicados pela Axios. Esse prêmio reflete o valor adicional exigido por investidores para emprestar à França em comparação com a Alemanha, vista como uma alternativa mais segura. Adicionalmente, a guerra no Irã encareceu a energia e enfraqueceu o crescimento econômico.
O governo tenta conter despesas para recuperar a credibilidade perante os credores, mas enfrenta forte oposição popular. A dificuldade de implementar o ajuste alimenta a percepção de risco nos mercados, tendo a paralisia política como o principal elemento deflagrador da tensão financeira.
Cenário eleitoral e sucessão
Nesse contexto de desgaste dos serviços públicos e incapacidade de solucionar a crise, a oposição ganha espaço para converter a frustração social em rejeição ao governo, beneficiando eleitoralmente Marine Le Pen, embora os manifestantes não apoiem necessariamente seu grupo político de discurso populista e anti-imigração.
O debate político apresenta soluções de difícil conciliação. Le Pen defende a inclusão de uma regra de limitação do déficit na Constituição, associada a cortes de impostos. Por sua vez, o candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, propõe o cancelamento da parcela da dívida francesa detida pelo banco central do país, estimada em cerca de 18%.
O atual presidente, Emmanuel Macron, de centro-direita, enfrenta a inércia de um governo em fim de ciclo, com menor capacidade de impor sua agenda, conduzir reformas e convencer a população. Com a proximidade da sucessão, a atenção se volta para os principais nomes que disputam seu espaço: Édouard Philippe e Gabriel Attal, ambos ex-primeiros-ministros e candidatos à Presidência em 2027. Attal representa de forma mais direta o partido de Macron, enquanto Philippe concorre pela liderança do campo mais amplo de centro e centro-direita.
