O cientista político Steven Levitsky, professor da Universidade Harvard e autor do renomado livro “Como as democracias morrem” (2018), afirmou que a atual crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é um sinal claro de que o poder da Corte precisa ser limitado. Em entrevista concedida ao Poder360 na segunda-feira (7 de setembro de 2026), o especialista de 58 anos defendeu que os ministros devem ser responsabilizados por eventuais atos ilegais e que o Brasil carece de mecanismos de fiscalização externa para o tribunal.
Reformas e Responsabilização da Corte
Para Levitsky, o escândalo atual evidencia que o país necessita de reformas institucionais. Embora reconheça que o STF foi um defensor ativo e eficaz da democracia ao condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 2025, o cientista político ressalta que isso não isenta a Corte de abusos. Segundo ele, é possível que o tribunal tenha sido simultaneamente um baluarte democrático e culpado de atos de corrupção e abuso de poder. Contudo, ele expressou ceticismo quanto à realização de mudanças profundas, mencionando que não se surpreenderia se a situação “acabasse em pizza”, citando o exemplo da Operação Lava Jato, que não resultou em uma reforma sistêmica.
Críticas aos Governos de Lula e Flávio Bolsonaro
Levitsky, que se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto em 2025, classificou a atual gestão petista como “medíocre”. Ele apontou que Lula, aos 80 anos, enfrenta os desafios da idade e que o PT fracassou ao não renovar a centro-esquerda com um sucessor. Sobre uma possível vitória de Flávio Bolsonaro para o mandato que se inicia em 2027, o professor criticou a falta de experiência do senador e previu um governo composto por ministros “ideológicos e ineptos”, seguindo o padrão da gestão de seu pai, que Levitsky descreveu como “pior do que medíocre” e “terrível”.
Contexto Global e Relações Institucionais
Ao comparar o Brasil com países como EUA, Índia e Indonésia, Levitsky observou que o STF brasileiro acumulou um “superpoder” extraordinário, especialmente durante os embates com Jair Bolsonaro. Ele destacou que democracias grandes e desiguais exigem negociações constantes, o que torna a governabilidade difícil. Sobre o cenário internacional, o cientista político alertou para o estilo de liderança de Donald Trump, que busca subordinar outros países aos interesses americanos. Ele questionou se Flávio Bolsonaro teria a experiência necessária para resistir a exigências descabidas dos EUA ou se acabaria em uma posição de servidão, algo que a população brasileira dificilmente aceitaria.
Perspectivas para o Futuro
Apesar de considerar a democracia brasileira em melhor estado do que estaria sob a influência de uma Suprema Corte omissa como a dos EUA, Levitsky enfatiza que a política não deve ser vista de forma maniqueísta. Ele acredita que o futuro da crise dependerá de negociações políticas complexas, que podem resultar tanto no impeachment de ministros quanto na manutenção do status quo. Quanto às eleições nos EUA, ele avalia que o Brasil não será prioridade imediata para Trump, a menos que surja uma crise, e que mudanças significativas na política externa americana para o país só ocorreriam com uma eventual vitória democrata em 2028.
