A grave crise energética enfrentada por Cuba tem transformado a rotina de moradores e impactado setores fundamentais da economia, como o turismo e a produção de alimentos. Na região de Viñales, no oeste do país, guias turísticos e produtores locais lidam diariamente com apagões constantes, escassez de combustível e falta de visitantes, adaptando-se com o uso de carvão, lenha, lamparinas e painéis solares.
Impacto no turismo e na produção local
Osiris Hernández, que atua há 29 anos como guia na Cueva del Indio, relata que os turistas pararam de chegar em decorrência dos apagões e da escassez de combustível. O turismo na área é agroecológico, focado no campo e nas plantações de tabaco. Para receber visitantes ou manter suas próprias casas, moradores recorrem a ventiladores a bateria e cozinham com carvão e lenha.
Na propriedade El Olivo, o produtor Osnel Corrales e sua família combinam pecuária, produção de laticínios e um restaurante. O processo de pasteurização do iogurte utiliza fogo de carvão vegetal, seguido pelo uso de eletricidade armazenada em baterias conectadas a painéis solares. Com geradores inutilizáveis pela falta de combustível e sem clientes no restaurante, a produção passou a ser distribuída por encomenda em Viñales e Havana.
Déficit na rede elétrica e sanções
A locomover-se na ilha também representa um desafio, com triciclos elétricos adaptados com painéis solares nos tetos para recarga diurna. Segundo dados divulgados pela estatal Unión Eléctrica em 13 de setembro, a empresa contava com 1.335 megawatts para atender a um pico de consumo noturno de 3.270 megawatts, resultando em um déficit de 1.965 megawatts e produção de apenas um terço da energia necessária.
O engenheiro Rubén Campos Olmos, diretor da Unión Eléctrica, aponta que a deterioração da rede foi progressiva e que o país sofreu oito apagões nacionais devido a falhas sistêmicas apenas em 2026. Campos atribui a situação principal à falta de recursos para novas capacidades e manutenção de usinas termelétricas operando há quase 50 anos, agravada pelas sanções dos Estados Unidos que restringiram o suprimento de petróleo da Venezuela, Rússia e México.
Transição energética e divergências políticas
Como alternativa, as fontes renováveis passaram de 3% da eletricidade gerada em 2024 para 10% atualmente, com apoio da China e meta de atingir 30% até 2030. Rosell Guerra Campaña, diretor de energias renováveis do Ministério de Energia e Minas, afirma que o programa visa eliminar a dependência de combustíveis fósseis para suprir a demanda urgente.
Em contrapartida, Joshua Treviño, do America First Policy Institute, afirmou em entrevista compartilhada pelo Departamento de Estado dos EUA que mudanças políticas em Cuba eliminariam os apagões. Guerra Campaña discorda, argumentando que a solução exige o fim do bloqueio, a permissão para importar combustível e o avanço do programa de energia renovável, sustentando que o país possui fontes suficientes e mão de obra qualificada.
