Impacto da instabilidade jurídica no agronegócio
A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a gerar reflexos no agronegócio brasileiro, afetando a segurança jurídica de contratos e processos de recuperação judicial. Claudio Damasceno, especialista em reestruturação e sócio da RGF-BIZDOC, ressalta que, embora não existam evidências imediatas de fuga de investidores ou encarecimento do crédito provocado exclusivamente pelo conflito no tribunal, o setor já lida com um severo aperto no financiamento.
Cenário de crédito e recuperações judiciais
O mercado de crédito rural enfrenta uma retração acentuada. As emissões de CRAs caíram de uma média mensal de R$ 5,3 bilhões no segundo semestre de 2025 para R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2026, uma queda de 77%. Simultaneamente, o número de empresas do setor em recuperação judicial saltou de 313, em março de 2023, para 1.336, em agosto de 2026. Segundo Damasceno, esse dado ainda subestima a realidade, pois não contempla produtores rurais pessoa física.
O papel da incerteza institucional
Para o especialista, a crise institucional funciona como um agravante de margem. A instabilidade jurídica dificulta a mensuração de passivos tributários, como a questão do Funrural (ADI 4.395), cujos atrasos no julgamento impedem a elaboração de planos de recuperação viáveis. Diante desse cenário, mais de 3 mil entidades, incluindo associações de peso como Abag, SRB e Unica, assinaram um manifesto cobrando respostas do STF. O diagnóstico é claro: embora a crise no STF não seja a origem do fechamento do crédito, ela amplia o risco e torna a renegociação de dívidas e a injeção de capital novo muito mais complexas.
