A menos de três semanas da votação, a crise reputacional que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a dominar a disputa presidencial, deixando em segundo plano temas como economia, saúde e segurança pública. O cenário divide as estratégias dos principais concorrentes ao Palácio do Planalto, colocando o presidente Lula na defensiva e o senador Flávio Bolsonaro no ataque.
O epicentro da crise envolve suspeitas de corrupção baseadas em indícios de relações impróprias entre ministros da Corte e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, além da repercussão de mensagens encontradas no celular de Vorcaro apreendido pela Polícia Federal. A situação ganhou força após sessão em que o STF decidiu não abrir investigação sobre um de seus integrantes.
Impacto no eleitorado e pesquisas
Embora pesquisa Datafolha divulgada no dia 11 tenha apontado que para 85% dos entrevistados as revelações das 52 mensagens enviadas pelo ex-dono do Banco Master a Alexandre de Moraes não alteram a intenção de voto, outros dados do mesmo levantamento chamam a atenção das campanhas:
- 4% dos entrevistados afirmaram ter trocado de candidato por causa do escândalo, o que representa cerca de 6 milhões de eleitores.
- 7% declararam dúvidas sobre o voto após as divulgações da Polícia Federal, montante equivalente a cerca de 11 milhões de eleitores.
O impacto também aparece nos números da Quaest, onde Flávio Bolsonaro surge numericamente à frente de Lula em simulação de segundo turno, registrando 42% contra 40%. O candidato da oposição também apresentou crescimento entre o eleitorado feminino — subindo de 35% para 38% — e entre os evangélicos, onde passou de 48% para 51%. Em contrapartida, as intenções de voto em Lula caíram nesses mesmos segmentos.
Para a cientista política Mayra Goulart, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as suspeitas sobre ministros fortalecem o oposicionista por corporificar o enfrentamento à Corte, unificando seu grupo político e atraindo parcelas do eleitorado associadas a Michelle Bolsonaro e ao ministro André Mendonça. Indicado por Jair Bolsonaro, Mendonça comanda a investigação do caso Master e pediu a apuração sobre Moraes com base em relatório da Polícia Federal.
Reações dos candidatos
Na ofensiva, Flávio Bolsonaro utilizou comícios — como o ato com cerca de 30 mil apoiadores na Avenida Paulista no feriado da Independência — e o horário eleitoral gratuito para pedir a saída de Alexandre de Moraes e de Lula. O senador cunhou o lema de que votar em Lula seria votar em Moraes, associando o atual governo a um sistema que descreve como podre. A campanha oposicionista também sustenta que Flávio pediu 134 milhões de reais a Vorcaro para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
De outro lado, Lula adota uma postura de equilíbrio: condena a degradação moral e afirma que juízes não podem usar cargos para enriquecer, mas evita ataques diretos à Corte, com a qual firmou parceria estratégica durante seu mandato. Em entrevista à Record, o presidente defendeu uma reforma profunda no Judiciário, propondo a fixação de mandatos para ministros do STF, alterações em critérios de ingresso e limites para a atuação de parentes de magistrados como advogados. Lula também ponderou que não foi o responsável por indicar Alexandre de Moraes — atribuindo o ato a Michel Temer — e argumentou que André Mendonça age com objetivos políticos para favorecer seu adversário.
A resposta petista nas redes e na propaganda busca inverter o ônus político, com declarações como a do secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares, afirmando que há um único candidato à Presidência investigado por envolvimento no escândalo do Banco Master.
Com o aumento da desconfiança no STF apontado por pesquisas e o salto da corrupção para o topo das preocupações do eleitorado — atrás apenas da segurança pública —, o diálogo com o eleitor independente, que costuma definir o voto na reta final, tornou-se o principal desafio da disputa.
