A recente crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) passou a influenciar de maneira direta as estratégias e os discursos das campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL), a apenas três semanas do primeiro turno das eleições de 2026. A Corte realizou na quarta-feira (16) a sua primeira sessão plenária após uma reunião marcada por confrontos inéditos, acusações mútuas e impasse sobre investigações envolvendo os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Analistas descreveram o ambiente interno do tribunal como um cenário de "ressaca" e de profunda tensão, caracterizado por uma divisão profunda e de difícil recomposição. Para a analista de Judiciário Flávia Maia, o episódio representou um espetáculo sem precedentes e muito negativo para a imagem da instituição, com problemas de decoro entre os ministros. O tribunal tem nova sessão marcada para o dia 23, quando decidirá sobre a abertura de investigação contra André Mendonça.
A estratégia de Flávio Bolsonaro
Em agenda de campanha realizada no Ceará na quarta-feira, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, buscou associar a imagem do presidente Lula à de Alexandre de Moraes e dos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, rotulando o grupo como "ministros do Lula".
“Ninguém aguenta mais os ministros do Lula no Supremo melando o Brasil, atrapalhando a nossa democracia”, declarou Flávio Bolsonaro, acrescentando que, sem eles, a democracia, o Brasil e o judiciário viveriam.
Segundo o analista de Política Caio Junqueira, a campanha de Flávio Bolsonaro soube explorar bem a crise nos últimos dez dias, focando na mensagem de que "Moraes é Lula" e alertando que uma reeleição do petista resultaria na indicação de mais ministros com perfis semelhantes aos de Alexandre de Moraes e Flávio Dino.
Dificuldades e divergências na campanha de Lula
Em entrevista ao podcast Desce a Letra, o presidente Lula tentou se distanciar da crise ao enfatizar que não foi ele quem indicou Alexandre de Moraes ao STF — lembrando que a indicação partiu do ex-presidente Michel Temer — e defendeu a investigação de qualquer ministro sob suspeita. No entanto, o petista também elogiou a atuação de Moraes no julgamento da trama golpista, classificando o trabalho como extraordinário para garantir a democracia, além de fazer críticas a Flávio Bolsonaro e citar supostos envolvimentos do adversário com o empresário Vorcaro.
O movimento gerou divergências internas. Conforme apuração da jornalista Jussara Soares, aliados e interlocutores próximos de Lula avaliaram o elogio a Alexandre de Moraes como um erro estratégico e um deslize. Existia um entendimento consolidado entre parte da base de apoio de que o presidente deveria ter optado por se distanciar e "soltar a mão" do ministro, especialmente por Moraes ter sido relator de inquéritos sensíveis ao bolsonarismo, como o das fake news e o da trama golpista que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para Caio Junqueira, a manifestação de Lula representou uma tentativa de adaptação para recuperar terreno perdido. O analista pontuou que, enquanto o debate público girava em torno de Alexandre de Moraes e das mensagens do caso, a campanha petista tratava de temas como soberania, Trump e Estados Unidos.
A âncora Thais Herédia destacou que marqueteiros políticos se surpreenderam com o desarranjo na campanha de Lula e a demora na resposta a uma crise desta magnitude por parte de um político experiente. Segundo relatos obtidos por Jussara Soares, há um sentimento de lentidão e incerteza nos bastidores governistas sobre os próximos passos a serem tomados diante do cenário eleitoral.
