A tensão envolvendo os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal ganhou repercussão com contornos espirituais entre o eleitorado evangélico nas redes sociais. Relatório produzido pela Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque (DX), com base no monitoramento de 31 de agosto a 13 de setembro, aponta que o conflito passou a ser interpretado por lideranças religiosas e políticas aliadas ao bolsonarismo por meio de profecias, orações e referências bíblicas.
O levantamento contabilizou 26.762 resultados em 573 perfis de lideranças religiosas, políticas, organizações, veículos e influenciadores evangélicos, acumulando 189 milhões de interações. O movimento ocorre em meio ao escândalo do Banco Master, após o STF iniciar a discussão sobre questão de ordem em petições — incluindo uma apresentada por Mendonça com base em relatório da Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que menciona supostos diálogos entre Moraes e o banqueiro. O julgamento foi suspenso em 15 de setembro após pedido de vista de Flávio Dino.
Nesse cenário, Mendonça passou a ser retratado como alguém cuja trajetória envolve intervenção divina. O relatório resgata uma profecia da pastora Valnice Milhomens e registra mobilizações de oração dos apóstolos Estevam e Sônia Hernandes. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro relatou ter tido uma visão de Mendonça entrando no STF durante um retiro espiritual. Já o pastor Cláudio Duarte comparou Mendonça a Jair Bolsonaro quanto ao papel da oração. Simbologias bíblicas também foram utilizadas pelo teólogo Caio Modesto, que comparou o ministro a Daniel na cova dos leões, e pelo senador Magno Malta (PL-ES), que recorreu ao Livro de Ester.
Em contrapartida, Alexandre de Moraes foi associado ao pecado, à mentira e à falsidade, enquanto Mendonça recebeu rótulos como herói nacional e pastor levantado por Deus. O pastor Anderson Silva utilizou a história do rei Belsazar para associar Moraes à embriaguez pelo poder, e o pregador Israel Santos afirmou que nenhuma cadeira torna alguém intocável diante de Deus. Imagens também representaram Moraes como figura demoníaca em publicações favoráveis a Mendonça.
O relatório aponta que a movimentação se alinha ao acirramento da disputa eleitoral, com intensificação da contracampanha contra Lula e apoios públicos a Flávio Bolsonaro (PL), citado por Estevam Hernandes e presente em igrejas de André Fernandes e Valdemiro Santiago. Líderes como Cláudio Duarte e Valnice Milhomens associaram o voto a pautas morais e religiosas. No ranking de interações entre lideranças políticas evangélicas, Nikolas Ferreira liderou com 18,8 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro com 9,3 milhões, Magno Malta com 5,6 milhões e André Janones com 5,1 milhões.
Por outro lado, lideranças evangélicas ligadas à esquerda, como Henrique Vieira, Aava Santiago, Benedita da Silva e Marina Silva, buscaram associar a religião à democracia e à justiça social. André Janones publicou 151 conteúdos combinando defesa de Lula, críticas ao bolsonarismo, menções ao fim da escala 6x1 e ataques a figuras como Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e André Mendonça. O levantamento conclui que o período registrou maior circulação de mensagens eleitorais em detrimento de conteúdos estritamente religiosos no ecossistema evangélico.
