Uma busca por segurança interrompida
“Está tudo bem agora, estou segura”, relembrou Nika ao chegar aos Estados Unidos. “Posso construir uma vida nova aqui.” A alegria de alcançar o que considerava um dos melhores países do mundo, no entanto, foi passageira. Nika agora faz parte de um grupo crescente de imigrantes deportados pelo governo Trump para nações onde nunca estiveram e que raramente podem ser descritas como portos seguros. Em um contexto de endurecimento migratório, a ONU aponta que quase 200 mil pessoas foram deportadas para o Haiti em 2026. Além disso, casos recentes ganharam os holofotes, como a detenção do influenciador Milo Yiannopoulos pelo ICE e a prisão — seguida de libertação — do pai de um militar americano em missão no Oriente Médio.
A brecha jurídica das deportações para terceiros países
O caso de Nika revela uma brecha jurídica utilizada pela atual gestão. Embora juízes tenham impedido o governo americano de enviar certos migrantes de volta aos seus países de origem por riscos de vida, o governo firmou dezenas de acordos com países terceiros. Nesses locais, pessoas como Nika ficam estagnadas em situações de extrema precariedade. Por temer por sua segurança, a imigrante utiliza o pseudônimo Nika. “Se eu estivesse no Irã, eles me matariam”, afirmou emocionada, lembrando que passou a juventude protestando contra a República Islâmica, regime que matou muitos de seus amigos e mantém outros presos.
Tensões geopolíticas e o destino traçado
A história de Nika coincide com um período crítico nas relações entre EUA e Irã. Após protestos massivos em Mashhad e uma repressão que matou milhares, Donald Trump incentivou a população iraniana a tomar o controle das instituições. No final de fevereiro, uma escalada militar entre EUA, Israel e Irã resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. Nika, nos EUA, chegou a ter esperança de que o regime cairia e ela voltaria para casa, mas seu destino já estava decidido pelas autoridades migratórias.
O dia da deportação e a vida na República Centro-Africana
Após viver brevemente em liberdade na Califórnia, Nika foi convocada para o que acreditava ser uma reunião de rotina no Departamento de Segurança Interna em junho. Documentos obtidos pela CNN mostram que a deportação já havia sido decidida semanas antes. Em 11 de junho, ela foi algemada e colocada em um voo com outros 17 migrantes de diversas nacionalidades. Somente ao embarcar, pela tela do assento, descobriu o destino: Bangui, na República Centro-Africana.
Sua advogada, Sahar Jalili Pawelski, tentou impedir o voo sem sucesso. Mesmo com ordens de proteção judicial contra perseguição e tortura, a política de Stephen Miller, vice-chefe de gabinete, prevaleceu. Miller declarou que as portas dos EUA estão totalmente fechadas para requerentes de asilo e que acordos com terceiros países são essenciais para a segurança nacional.
Medo, malária e acordos financeiros obscuros
Em Bangui há mais de dois meses, Nika vive confinada por medo da violência local e de extorsões policiais. Ela chegou a contrair malária e precisou de internação. O Departamento de Estado dos EUA desencoraja viagens ao país devido a riscos de terrorismo e sequestro, recomendando até que visitantes deixem amostras de DNA para identificação em caso de morte. A CNN apurou que o governo americano aumentou drasticamente a ajuda financeira à República Centro-Africana, destinando cerca de US$ 85 milhões a operações da ONU e US$ 50 milhões a fundos humanitários locais. O Departamento de Segurança Interna confirmou que a ajuda externa é usada para apoiar países que ajudem nas prioridades de imigração dos EUA.
Atualmente, Nika vive em um limbo jurídico, com uma permissão de apenas três meses no país africano. Enquanto novos voos de deportação chegam, sua defesa tenta uma ação judicial federal para reabrir seu pedido de asilo e trazê-la de volta aos Estados Unidos.
