A confirmação de indícios de petróleo no poço Morpho pela Petrobras, anunciada em agosto de 2026, colocou em evidência o potencial e os desafios da exploração na Margem Equatorial brasileira. Localizado no bloco FZA-M-59, a 175 km da costa do Amapá e a 500 km da desembocadura do Rio Amazonas, o poço exigiu a travessia de 2.886 metros de lâmina d’água e uma perfuração de até 7.081 metros de profundidade.
A Margem Equatorial acompanha o litoral do país desde o Amapá até o Rio Grande do Norte, abrangendo as bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar. Estimativas indicam um potencial de 11 bilhões de barris na Foz do Amazonas e de 20 bilhões a 30 bilhões na bacia Pará-Maranhão. O avanço na região é impulsionado por descobertas em países vizinhos no mesmo contexto geológico, como a Guiana e o Suriname.
Segundo Allan Kardec, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo e Biocombustíveis (ANP), a região funciona como um “novo pré-sal, mas sem sal”. O especialista aponta que a ausência de uma camada de sal de até 2.000 metros de espessura — típica de bacias como Santos e Campos — facilita o processo, embora a extração ocorra em águas profundas e enfrente desafios logísticos e operacionais complexos.
O licenciamento ambiental na região tem sido rigoroso. Após ter a licença negada em 2023 pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Petrobras obteve autorização para perfurar o Morpho em outubro de 2025. Em setembro de 2026, o órgão ambiental autorizou a perfuração de mais três poços no bloco: Morpho Extension, Manga e Crotalus.
A exploração ocorre em um cenário de queda nas reservas provadas do país. Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam uma redução de 24% no volume até 2035, com a relação entre reservas e produção anual caindo de 17 para 12 anos. Para Allan Kardec, a atuação da Petrobras reduz as incertezas para outras companhias, e a produção na área poderá começar em até 8 anos. O interesse privado já se refletiu na 5ª rodada da Oferta Permanente da ANP em junho de 2025, na qual blocos na Foz do Amazonas foram arrematados por consórcios envolvendo Petrobras, ExxonMobil e Chevron.
Em contrapartida, organizações ambientais expressam forte oposição. Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora-executiva do Instituto Arayara, argumenta que a nova fronteira petrolífera é incompatível com o combate às mudanças climáticas e questiona a necessidade da expansão para a segurança energética. O Arayara integra uma ação civil pública pelo cancelamento das licenças, apontando riscos como a ausência de Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), incertezas sobre o comportamento de eventuais vazamentos devido a fortes correntes marinhas e a alta sensibilidade ambiental da costa amazônica.
