O despejo e posterior reversão da situação de María del Carmen Abascal, de 87 anos, tornaram-se o centro das atenções na Espanha esta semana, evidenciando a grave crise de acesso à moradia no país. Conhecida como Maricarmen, a moradora do bairro de El Retiro, em Madri, vivia havia mais de 70 anos em um apartamento na Rua Alcalde Sainz de Baranda. A retirada do imóvel ocorreu na última quarta-feira (23), apesar dos esforços de dezenas de pessoas que passaram a noite em frente ao local para tentar impedir a ação.
O caso provocou uma forte onda de solidariedade e manifestações. Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Madri no sábado para protestar contra o despejo. Autoridades do governo espanhol na capital estimaram que quase 10 mil pessoas se reuniram para repudiar a retirada de Maricarmen e expressar frustração com as crescentes dificuldades para encontrar moradia. Alguns manifestantes acamparam na Puerta del Sol, exigindo maior proteção aos inquilinos e a proibição de despejos na ausência de alternativas habitacionais próximas. Protestos semelhantes ocorreram em cidades como Barcelona, Sevilha e Valência.
Após ser retirada do apartamento, Abascal foi levada em uma maca para o Hospital Gregorio Marañón, onde permaneceu internada para exames médicos. Dias depois, seus advogados informaram na segunda-feira que ela poderá retornar para casa após chegar a um acordo com o proprietário do imóvel, prevendo o pagamento de um aluguel similar ao anterior sob um novo contrato de oito anos.
Histórico do despejo
Abascal morava no mesmo endereço desde 1956, onde residiu com os pais até herdar o contrato de aluguel antigo, pagando cerca de US$ 568 (500 euros) mensais. A situação mudou em março de 2018, quando a empresa imobiliária Urbagestión Desarrollo e Inversión adquiriu o edifício por US$ 280.787 (247 mil euros). O novo proprietário passou a exigir um aluguel até quatro vezes maior, valor incompatível com a aposentadoria da idosa, estimada em US$ 1.478 (1.300 euros), segundo a União dos Inquilinos de Madri.
Em março de 2020, a imobiliária iniciou um processo para encerrar o contrato. Após derrotas e recursos judiciais que chegaram ao Tribunal Constitucional e ao Supremo Tribunal, a ordem de despejo avançou. Tentativas anteriores foram suspensas temporariamente por normas de proteção a pessoas jurídicas e situações de vulnerabilidade, mas o despejo acabou executado em julho de 2026. A defesa tentou alternativas de mediação por meio da agência estatal Casa 47 e contou com a oferta anônima de pagamento de parte do aluguel, mas a empresa não demonstrou interesse. A Prefeitura de Madri descartou uma proposta da imobiliária para incluir o imóvel no programa ReViVa por inviabilidade legal, mas ofereceu o Serviço de Mediação de Aluguel.
Crise na habitação
As dificuldades habitacionais na Espanha geram protestos recorrentes e aumentam a pressão sobre autoridades locais e sobre o governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. O descontentamento decorre da alta nos preços imobiliários nas grandes cidades. Em Madri, o aluguel quase dobrou em uma década, saltando de US$ 14,55 (12,8 euros) por metro quadrado em agosto de 2016 para US$ 26,49 (23,3 euros) em agosto de 2026, conforme dados do Idealista.
O cenário contrasta com o salário médio anual do país em 2024, de cerca de US$ 33.596 (29.540 euros), segundo o Instituto Nacional de Estatística. Com esses valores, alugar um apartamento de 50 metros quadrados na capital consome cerca de US$ 15.894 (13.980 euros) por ano, equivalente a quase metade da remuneração média. O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat) recomenda que o aluguel comprometa menos de 30% da renda para ser considerado acessível.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/despejo-idosa-espanha-crise-habitacional-protestos/
