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Diagnósticos psiquiátricos: entre sofrimento e patologização da vida

A psicóloga Flávia Albuquerque critica a crescente patologização da vida e defende a distinção entre sofrimento e transtorno mental. Em seu livro 'Despatologiza', ela analisa como diagnósticos como TDAH e autismo se tornaram formas de identidade, refletindo as exigências de um mundo neoliberal que cobra performance constante. Albuquerque propõe um cuidado em saúde mental que não dependa exclusivamente de diagnósticos, mas que acolha o sofrimento em sua complexidade e raízes sociais. Saiba mais.

Redação•02 de set. de 2026, 08:05
Diagnósticos psiquiátricos: entre sofrimento e patologização da vida
Imagem: site

Diagnósticos psiquiátricos: entre sofrimento e patologização da vida

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O fenômeno da epidemia de diagnósticos psiquiátricos

Vivemos um momento em que siglas como TDAH, ludopatia e transtorno borderline ganham espaço não apenas nos consultórios, mas também nas conversas cotidianas, reais e virtuais. A discussão sobre saúde mental no Brasil atual é permeada por uma crescente patologização da vida, que levanta questões fundamentais: qual é a fronteira entre o normal e o patológico? Quando a tristeza se torna depressão ou a agitação infantil se transforma em hiperatividade? Essas perguntas complexas exigem respostas igualmente complexas, pois o problema pode não estar apenas no indivíduo diagnosticado, mas na sociedade que o rotula.

A medicalização da vida e as bioidentidades

Flávia Albuquerque, psicóloga e pesquisadora com quase 250 mil seguidores no Instagram, aborda essas questões em seu livro Despatologiza – A Vida que Não Cabe no Diagnóstico Psiquiátrico. A obra, lançada pela Editora Rocco, critica a medicalização e a medicamentalização da existência, destacando como diagnósticos psiquiátricos passaram a definir identidades. Termos como “eu sou TDAH” ou “eu sou autista” revelam como o diagnóstico deixou de ser apenas uma descrição clínica para se tornar um modo de pertencer ao mundo.

Segundo Albuquerque, esse fenômeno está ligado ao projeto neoliberal, que exige indivíduos cada vez mais produtivos e autogeridos. Nesse contexto, o sofrimento psíquico é traduzido pela linguagem do déficit atencional e da hiperatividade, refletindo as exigências de um mundo que cobra performance constante.

O diagnóstico, embora possa trazer alívio ao dar nome ao sofrimento, também pode isolar o indivíduo ao transferir a responsabilidade pelo cuidado para dentro do corpo. “Não é sua culpa, é seu cérebro”, diz Albuquerque, destacando como a patologização pode se tornar uma forma de absolvição que, no entanto, cobra um preço: a internalização da lógica de autogerenciamento permanente.

Despatologizar o cuidado: uma proposta além do CID

A autora defende que o cuidado em saúde mental não deve depender exclusivamente de diagnósticos como o CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças). Ela cita a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no Brasil, construída a partir da reforma psiquiátrica, como um exemplo de modelo que prioriza o vínculo, a reinserção social e o cuidado no território, em oposição ao isolamento e à tutela.

Para Albuquerque, despatologizar não significa abolir toda linguagem diagnóstica, mas romper com a ideia de que o CID é a única porta de entrada para o cuidado e a cidadania. O desafio é construir um paradigma que não reduza o sofrimento a uma categoria, mas que o acolha em sua complexidade, reconhecendo suas raízes sociais.

A fronteira entre sofrimento e transtorno

A psicóloga argumenta que não existe uma linha objetiva entre o que é sofrimento e o que é transtorno. Essa fronteira é traçada cultural e historicamente, muitas vezes atravessada por questões de classe, raça e gênero. Sem marcadores biológicos para validar as categorias psiquiátricas, os diagnósticos dependem de julgamentos subjetivos, como critérios vagos e interpretativos.

Albuquerque questiona quem tem o poder de traçar essa linha e destaca que, enquanto ela for apresentada como um fato científico neutro, a psiquiatria continuará convertendo diferenças em doenças e sofrimentos legítimos em sintomas. O cuidado verdadeiro, segundo ela, deve devolver ao sofrimento sua dimensão coletiva, construindo redes de escuta e vínculo que não cabem dentro de um código.

Fonte: https://veja.abril.com.br/saude/diante-de-uma-epidemia-de-diagnosticos-psicologa-defende-distinguir-sofrimento-de-transtorno-mental/

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