A chegada de dois novos pandas gigantes aos Estados Unidos, chamados Ping Ping e Fu Shuang, recolocou em evidência a chamada diplomacia panda em meio à corrida tecnológica e à disputa geopolítica entre chineses e americanos. Especialistas comparam a atual corrida pela inteligência artificial a períodos históricos como a Guerra Fria, a corrida espacial e o desenvolvimento da bomba atômica.
Em maio, os presidentes Xi Jinping e Donald Trump se encontraram na China, marcando a primeira visita de um mandatário americano ao país asiático em quase uma década. Recentemente, em Washington, Xi Jinping reuniu-se novamente com Trump e com bilionários do setor tecnológico. No entanto, o encontro não resultou em acordos formais sobre os riscos associados ao avanço da inteligência artificial, limitando-se a um entendimento de que os dois países irão se alertar caso surjam problemas graves.
Sobre o envio dos animais, o líder chinês Xi Jinping afirmou:
“O panda gigante é um mensageiro da amizade entre chineses e americanos.”
A prática da diplomacia panda remonta ao período anterior à chegada do Partido Comunista ao poder na China, quando o governo de Chiang Kai-shek presenteou o Zoológico do Bronx, em Nova York, com dois pandas em agradecimento à ajuda americana na Guerra do Japão. Posteriormente, com a vitória comunista liderada por Mao Tsé-Tung, os animais passaram a ser oferecidos apenas a aliados socialistas. A estratégia mudou em 1972, com a visita do presidente americano Richard Nixon a Pequim, seguida pela chegada de animais aos Estados Unidos e ao Japão.
Com Deng Xiaoping, a lógica foi alterada para o modelo de aluguel comercial. Atualmente, os contratos costumam durar dez anos, com custos que podem alcançar um milhão de dólares anuais por casal. Contudo, todas as regras estipulam que os filhotes nascidos fora do território chinês pertencem à China e devem ser devolvidos.
Thiago de Aragão, especialista em relações China-América e CEO da Arko Internacional, analisa o valor simbólico da prática:
“Uma vez que o panda chega no seu país, isso é um gesto de amizade, mas se você trai a minha confiança, eu vou retirar e nós vamos ter que começar do zero, assim como países convocam embaixadores de volta quando existe uma crise, a China faz isso com os pandas.”
Historicamente, o fim dos contratos ou a retirada antecipada de pandas tem refletido tensões diplomáticas. Em 2022, após a visita da então presidente da Câmara americana, Nancy Pelosi, a Taiwan, e incidentes posteriores envolvendo um balão espião chinês em 2023, os Estados Unidos devolveram exemplares mantidos em Atlanta e Washington. No Japão, após declarações da primeira-ministra Sanae Takaichi sobre uma eventual invasão a Taiwan, o turismo chinês despencou e os últimos pandas japoneses retornaram à China em janeiro.
Para o especialista Thiago de Aragão, o envio dos animais funciona como um sinal de distensão:
“O panda é um gesto que tranquiliza até mesmo o investidor, até mesmo os líderes da União Europeia, líderes na Ásia, porque ele simboliza que tem um lado que está disposto a não escalar.”
Apesar dos gestos diplomáticos, a questão de Taiwan permanece como uma linha vermelha imposta por Pequim. Enquanto os pandas alugados servem como instrumentos de aproximação ou afastamento no cenário internacional, os animais enviados a Taipé em 2008 — únicos doados e não alugados — seguem como representação da posição de que a ilha integra o território chinês.