Uma série de discussões com início marcado para esta semana em Brasília tem o potencial de estabelecer um marco para a posição do Brasil na disputa global envolvendo minerais críticos e terras raras. O evento congrega autoridades governamentais, corporações, investidores e analistas durante o período em que a regulamentação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, criada pela Lei 15.506/2026, passa a ser implementada.
O ponto central do debate consiste em determinar se o país manterá sua postura de exportador de matéria-prima ou se estruturará bases para beneficiar, processar e converter seus recursos minerais em itens com maior valor agregado. A relevância econômica do tema é evidenciada por um levantamento da Amcham Brasil, que indica que uma estratégia voltada ao investimento estrangeiro, ao processamento interno e ao atendimento da indústria local pode incrementar o PIB em R$ 192,1 bilhões até o ano de 2050, além de criar 750 mil vagas de emprego.
Em contrapartida, um modelo de menor densidade industrial, focado essencialmente na exportação e financiado por capital nacional, projeta um impacto menor, estimado em R$ 128,7 bilhões para o PIB e 304 mil postos de trabalho. A diferença entre as duas projeções representa uma variação de R$ 63,4 bilhões no PIB e 446 mil ocupações, evidenciando a escolha estratégica que a capital federal precisará realizar sobre onde serão mantidos a tecnologia, a renda, a capacidade produtiva e os postos de trabalho relacionados.
O território brasileiro conta com reservas conhecidas de terras raras estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas, configurando o segundo maior estoque global, atrás apenas da China, que possui aproximadamente 44 milhões de toneladas. Esses 17 elementos químicos são fundamentais para a fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, motores para veículos elétricos, turbinas eólicas, baterias, dispositivos móveis, computadores, semicondutores, drones, satélites, radares e materiais de defesa.
Apesar da riqueza geológica, a vantagem não assegura liderança econômica, visto que a China domina cerca de 90% do refino mundial, etapa responsável por converter jazidas minerais em capacidade tecnológica, autonomia industrial e influência geopolítica. Esse cenário de concentração posiciona o Brasil como um elemento central na estratégia dos Estados Unidos para diminuir sua dependência em relação à China.
O interesse norte-americano já se traduz em aportes financeiros, tratativas e pactos de fornecimento voltados a iniciativas nos estados de Minas Gerais, Goiás e Bahia, enquanto aliados do presidente Donald Trump monitoram o surgimento de oportunidades no país. Um eventual triunfo de Flávio Bolsonaro no segundo turno poderia intensificar uma parceria bilateral relacionada a minerais estratégicos, atraindo recursos financeiros e demanda, mas também elevando as exigências por contrapartidas como transferência de tecnologia, refino no país, capacitação profissional, preservação ambiental e inserção brasileira nos elos mais rentáveis da cadeia produtiva.
As diretrizes discutidas em Brasília contemplam a definição de incentivos, parâmetros para investimentos, exigências de conteúdo e refino local, instrumentos de financiamento e o vínculo do país com recursos externos. Dessa forma, as deliberações abarcam temas de política industrial, segurança energética, inovação, defesa, diplomacia e soberania econômica, ditando se o Brasil atuará apenas como fornecedor de insumos para a transição tecnológica mundial ou como ator principal na nova indústria gerada por esse processo.
