A reta final da campanha para a eleição presidencial tem sido marcada por discussões rasas, falsas polêmicas, ataques e falta de propostas inovadoras voltadas aos reais problemas do país. Com 158.765.458 eleitores aptos a votar, a disputa entre os principais candidatos polarizou-se em torno do desgaste mútuo e de polêmicas secundárias, como o debate na última semana sobre a manutenção de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
Enquanto os favoritos aparecem tecnicamente empatados e rejeitados por metade do eleitorado, temas centrais como segurança pública, saúde, educação, crise fiscal e corrupção receberam pouca atenção qualificada. Especialistas e representantes de entidades apontam que a campanha priorizou frases de efeito e embates ideológicos em detrimento de soluções estruturais.
Segurança pública e criminalidade
A segurança pública figura no topo das preocupações da população. Um estudo da ONU de dezembro de 2023 colocou o Brasil na 14ª posição mundial em taxa de homicídios, com 21,26 registros por 100.000 habitantes. Já a ONG Armed Conflict Location & Event Data Project posicionou o país em 7º lugar entre os mais perigosos de 2025 devido ao crime organizado, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O tema foi instrumentalizado na campanha: Flávio Bolsonaro defendeu classificar facções como terroristas, enquanto Lula manifestou oposição à ideia. Segundo o Ministério da Justiça, há mais de oitenta facções criminosas no país, espalhadas por mais de vinte unidades da federação. Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, criticou a falta de propostas baseadas em evidências e apontou que os principais problemas incluem a falta de articulação entre União e estados, a violência contra a mulher e roubos de celulares.
Corrupção e escândalos
No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional de fevereiro, o Brasil obteve 35 pontos, repetindo a segunda pior nota desde 2012 e ocupando a 107ª posição entre 182 nações. A Polícia Federal desbaratou recentemente fraudes bancárias e desvios bilionários contra aposentados e pensionistas ligados aos escândalos do Master e do INSS.
Bruno Brandão, diretor-executivo da Transparência Internacional, criticou a escala dos casos e a ausência de punições severas. Guilherme France, gerente de pesquisas da organização, apontou que o país adicionou novas modalidades de desvios, como o orçamento secreto e ofensivas para reduzir a fiscalização de políticos. O procurador de Justiça Roberto Livianu classificou a situação como desesperadora diante de um eleitorado anestesiado.
Crise fiscal e dívida pública
O rombo no orçamento público federal em 2026 deve atingir 80,9 bilhões de reais, conforme o Ministério do Planejamento, quase o dobro de 2024 (43 bilhões de reais). O endividamento total de União, estados, municípios e INSS superou 11 trilhões de reais, alcançando 82,9% do PIB em agosto, o pior nível desde o fim da pandemia.
Especialistas como Felipe Salto, economista-chefe da Warren, destacam que as despesas obrigatórias comprometem até 95% da verba federal. Marcos Mendes, professor do Insper, aponta que o Estado gasta na mesma proporção que países ricos para atender a demandas sociais sem o respectivo crescimento econômico. Nenhum candidato apresentou propostas concretas para desarmar essa bomba fiscal.
Saúde e educação
Na saúde, o SUS enfrenta filas para consultas e exames especializados. Auditoria do Tribunal de Contas da União divulgada em julho sobre o programa Agora Tem Especialistas indicou que metade dos usuários espera mais de sessenta dias para procedimentos oncológicos. José Eduardo Lutaif Dolci, presidente eleito da Associação Médica Brasileira para o triênio 2027/2029, criticou a má gestão de recursos em um orçamento que supera 200 bilhões de reais, além da má formação médica e da concentração de profissionais no Sudeste.
Na educação, o IBGE apontou em junho que o país tem 8,4 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais (taxa de 4,9%), com mais da metade no Nordeste. O Pisa, divulgado em setembro pela OCDE, revelou que 43,8% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência, com o Brasil ocupando a 71ª posição em matemática entre 89 países. Talita Nascimento, do Todos pela Educação, defende melhor formação de professores, reforço escolar e expansão da educação integral com qualidade.
Crise institucional e relação entre os Poderes
Pesquisa Datafolha indicou que 48% da população não confia no Supremo Tribunal Federal, taxa recorde que coloca o STF à frente do Congresso (45%), partidos (45%) e governo federal (42%). O desarranjo institucional é impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares — que somaram 61 bilhões de reais em 2026 — e pelo protagonismo do STF na política, agravado por disputas públicas entre ministros relacionadas ao Banco Master.
Política externa
A política externa foi dominada por divisões ideológicas em torno da relação com os Estados Unidos e a China. Enquanto Lula usou sobretaxas americanas e sanções para defender a soberania nacional, Flávio Bolsonaro argumentou que sua proximidade com Donald Trump facilitaria parcerias estratégicas e a suspensão de tarifaços. O diplomata Rubens Barbosa avaliou que o país precisa colocar a casa em ordem e focar na segurança econômica antes de projetar uma atuação externa eficiente.
