O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, citou o nome de seu antecessor, Joe Biden, quase 900 vezes ao longo deste ano. O dado faz parte de um levantamento realizado pela agência de notícias Reuters, que aponta a estratégia do atual mandatário de manter o ex-presidente no centro das discussões políticas diante dos esforços republicanos para preservar o controle do Congresso nas Eleições de Meio de Mandato marcadas para novembro.
De acordo com o levantamento, Trump tem citado Biden em média três vezes por dia por meio de discursos, comentários e publicações na plataforma Truth Social. O atual presidente responsabiliza Biden por diversos problemas administrativos, incluindo questões ligadas à inflação, à imigração e à escassez de estoques militares. A frequência das menções ocorre mesmo com Biden, aos 83 anos e enfrentando um câncer em estágio 4, mantendo-se em grande parte afastado da vida pública.
Análises indicam que a tática busca direcionar a atenção dos americanos para supostas falhas da gestão democrata anterior, em um momento em que faltam apenas seis semanas para o pleito de 3 de novembro e o governo atual enfrenta quedas nos índices de aprovação, custos de vida persistentemente altos e conflitos prolongados.
Detalhamento das menções e temas abordados
O monitoramento da Reuters analisou as referências feitas desde 1º de janeiro, período que marcou o início do ciclo eleitoral de 2026. Nesse intervalo, Trump citou Biden nominalmente pelo menos 890 vezes, distribuídas em cerca de 200 eventos e entrevistas, além de aproximadamente 190 postagens na Truth Social.
- Economia: Biden foi mencionado pelo menos 210 vezes em discursos sobre a economia e o custo de vida.
- Imigração: O tema registrou 168 menções, com foco nas políticas de fronteira entre os Estados Unidos e o México.
- Política externa e segurança nacional: Questões internacionais somaram 138 menções, abrangendo críticas sobre o conflito no Irã, a guerra na Ucrânia, a retirada americana do Afeganistão e a relação com a China.
O recorde diário de citações ocorreu em julho, durante a reunião da Otan na Turquia, quando Trump mencionou o antecessor 16 vezes em um único dia. O presidente também direcionou críticas a Biden em ocasiões diversas, como na estreia de um filme da primeira-dama Melania Trump, no Café da Manhã Nacional de Oração e na Caça aos Ovos de Páscoa na Casa Branca.
Reações e contrapontos políticos
A postura da administração atual foi defendida pela porta-voz da Casa Branca, Olivia Wales. Para ela, as referências constantes justificam-se sob o argumento de que Joe Biden seria "o pior presidente da história americana" e que o atual governo atua diariamente para corrigir os problemas herdados.
Por outro lado, o uso recorrente do nome de Biden gerou críticas de opositores. T.J. Ducklo, porta-voz de Biden, recusou-se a comentar a reportagem, mas a ex-autoridade da Casa Branca Meghan Hays classificou o comportamento como uma obsessão. Segundo Hays, o foco em rediscutir o pleito de 2020 afasta a administração de prioridades econômicas cotidianas da população.
Estrategistas políticos também avaliaram a eficácia da estratégia. Ryan Williams apontou que o uso de um contraponto individual é uma característica constante na trajetória de Trump para desviar o foco de problemas atuais. Já o veterano estrategista republicano Charlie Black ponderou que focar no passado pode não surtir o efeito desejado para quem ocupa o cargo, sendo necessário defender o histórico próprio do governo.
Enquanto o governo federal aponta a administração anterior como causadora da alta de preços e dos desafios na fronteira, pesquisas de opinião sugerem que o próprio atual presidente atrai a insatisfação popular em relação à inflação e às medidas adotadas na gestão corrente.
