A Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem passado por um processo de juvenilização desde meados dos anos 2000. A modalidade deixou de ser ocupada predominantemente por idosos para incorporar jovens com histórico de reprovações e abandono escolar na infância e adolescência. No entanto, o setor ainda lida com a visão estigmatizada de que atende apenas a um público mais velho. A constatação faz parte de um estudo recém-publicado pela Ação Educativa, coordenado por Roberto Catelli Junior, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e coordenador institucional da entidade.
Dados do Censo Escolar 2025 indicam que quase a metade, ou seja, 44% do total de 2,2 milhões de matrículas na EJA, são de jovens de até 29 anos. Em regiões como Norte, Sul e Centro-Oeste, esse percentual já ultrapassa os 50%. O relatório aponta que a modalidade concentra estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, que precisam conciliar trabalho e estudos, além de enfrentarem dificuldades acumuladas como distorção idade-série e episódios de reprovação. Cerca de dois terços das matrículas são compostas por alunos negros.
Segundo o levantamento, o acesso à instituição de ensino não garante a permanência dos estudantes. Catelli defende que a EJA seja tratada como uma política intersetorial, capaz de solucionar problemas básicos como renda, fornecimento de óculos, material didático, segurança alimentar e vestuário adequado. O especialista ressalta que a falta de um programa social articulado desde o início da matrícula resulta na evasão dos jovens após poucos meses. No Brasil, 64 milhões de adultos não concluíram a educação básica, sendo 72% negros. Entre os 18 e 24 anos, apenas 38,1% frequentam a escola, cenário que exige busca ativa rigorosa por parte das instituições.
No aspecto financeiro e estrutural, a EJA sofre com a falta de investimentos municipais e, principalmente, estaduais. Para Catelli, as redes estaduais vêm destruindo a modalidade, colocando-a em risco de quase extinção. Os dados de matrículas ilustram a retração acumulada ao longo da última década:
- Ensino Fundamental: As matrículas caíram de 2,3 milhões em 2014 para 1,9 milhão em 2019, chegando a 1,4 milhão em 2025 (redução de 938 mil matrículas).
- Ensino Médio: Houve cerca de 1,3 milhão de matrículas em 2014, mantendo estabilidade até 2019, mas registrando queda a partir de 2022, alcançando 1 milhão e recuando para 845 mil em 2025.
A retração atinge intensamente a faixa etária dos 15 aos 29 anos. Embora o governo federal tenha conseguido abrandar a intensidade da queda, o movimento de baixa continua sendo puxado por estados como São Paulo. Atualmente, 20% dos municípios brasileiros não possuem nenhuma escola de EJA, mesmo em localidades onde 30% a 40% da população adulta não finalizaram a educação básica.
