O Brasil chega ao primeiro turno de sua décima eleição presidencial desde a redemocratização, em 1985, ainda sem conhecer detalhadamente as promessas dos principais candidatos para os grandes problemas econômicos atuais. O cenário destaca a aguda crise fiscal decorrente do crescimento recorde da dívida pública, acompanhada pela falta de clareza sobre a execução e viabilidade dessas propostas.
Enquanto os opositores à direita de Lula adotam discursos voltados ao corte de gastos, o atual presidente e candidato à reeleição defende uma política fiscal responsável em seu programa oficial, priorizando programas sociais. No entanto, faltaram debates aprofundados sobre a exequibilidade das medidas, em uma campanha marcada por ataques mútuos e debates cancelados ou sem a presença de todos os concorrentes. Os programas de governo foram entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em agosto.
Lula (PT)
A chapa de Lula propõe manter o arcabouço fiscal, substituindo o antigo teto de gastos. O documento oficial aponta que a manutenção da legislação controlou despesas sem prejudicar políticas sociais e reduziu o déficit primário. A campanha não apresenta metas efetivas para conter a dívida pública nem fala em cortes de despesas, lembrando que o próprio presidente afirmou no Jornal Nacional, no fim de agosto, que não se preocupa com a dívida pública. O plano também prevê investimentos em infraestrutura e indústria por meio do Novo PAC e da Nova Indústria Brasil, além da valorização do salário mínimo e do fortalecimento do Bolsa Família, reajustado em 15% a apenas dezoito dias da eleição.
Flávio Bolsonaro (PL)
Em oposição ao petista, o programa de Flávio Bolsonaro propõe reformular as regras fiscais com foco na estabilização e redução da dívida, buscando superávits primários e controle de gastos discricionários dos três Poderes. A equipe econômica, chefiada por Daniella Marques — ex-assistente de Paulo Guedes —, planeja cortar ao menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados e despesas administrativas, combater supersalários e retomar privatizações pelo Programa Nacional de Desestatização. Na área social, o plano prevê manter os programas com aperfeiçoamento de gestão e combate a fraudes.
Escritor Augusto Cury (Avante)
O autor de autoajuda propõe zerar o déficit fiscal mantendo investimentos estratégicos. Para alcançar a meta, sugere que cada ministério adote metas de eficiência e elimine desperdícios e gastos improdutivos, redirecionando recursos para saúde, educação, segurança e infraestrutura. O candidato defende uma reforma administrativa para modernizar carreiras públicas, com uso de inteligência artificial contra fraudes. A redução da dívida seria gradual, combinando crescimento econômico e equilíbrio fiscal. Para estimular a atividade, propõe a criação de 10.000 "Escolas de Empreendedorismo" e de um Banco do Empreendedor.
Ronaldo Caiado (PSD)
O ex-governador de Goiás propõe zerar o déficit fiscal já em 2027 revisando despesas e incentivos tributários. Sua principal iniciativa, o "Orçamento da Verdade", visa eliminar gastos ineficientes para reduzir o peso das despesas obrigatórias. Caiado também defende reforma administrativa e auditoria de benefícios fiscais, tendo detalhado durante a campanha a intenção de apresentar uma PEC transitória para limitar o crescimento das despesas do Executivo a 50% do crescimento do PIB e cortar 25% das despesas discricionárias dos três poderes. Na pauta social, propõe alterar a gestão dos benefícios e integrá-los à qualificação e ao emprego.
Renan Santos (Missão)
Sob o título "O Futuro é Glorioso", o programa de Renan Santos condiciona as políticas econômicas a um ajuste fiscal rigoroso, propondo uma ampla revisão do arcabouço por meio de uma "PEC da Transição". As medidas incluem a desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, desvinculação dos pisos de saúde e educação da receita, revisão do abono salarial e redução de renúncias fiscais, gerando uma economia estimada em 1,1 trilhão de reais até 2031. Na assistência social, propõe extinguir o Bolsa Família e substituí-lo pelo programa Frentes Cidadãs, trocando transferências monetárias para a população economicamente ativa por frentes de trabalho remuneradas.
