Israel se prepara para realizar em 27 de outubro a primeira eleição para o Knesset, o Parlamento, desde o ataque do Hamas ocorrido em 2023. A ofensiva resultou na morte de mais de 1.200 israelenses, centenas de sequestros e no início de um conflito prolongado que devastou a Faixa de Gaza e se estendeu ao Líbano e ao Irã, redefinindo o apoio internacional a Israel. Sem acordos definitivos de paz, as exigências de desarmamento do Hamas e a retirada das tropas israelenses mantêm o Exército no controle de cerca de 60% do território de Gaza.
O conflito tornou-se o eixo central da campanha eleitoral e da avaliação pública sobre a gestão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Embora a retaliação israelense tenha recebido amplo apoio popular, o governo enfrenta fortes críticas por falhas na prevenção do ataque de 2023 e pela ausência de acordos para a libertação de reféns. Protestos populares exigem investigações independentes sobre as responsabilidades do Executivo, enquanto reportagens recentes apontam pressões adicionais sobre o premiê, que culpa os chefes de segurança por falta de avisos prévios, narrativa rejeitada pela oposição.
Samuel Feldberg, doutor em Ciências Políticas pela USP e pesquisador da Universidade de Tel Aviv, aponta que o pleito funciona como um verdadeiro referendo sobre a aprovação do atual governo e sobre a responsabilidade de Netanyahu nos eventos de 7 de outubro de 2023. Enquanto a oposição atribui ao premiê o fracasso de inteligência, aliados sustentam que ele possuía o mesmo volume de informações dos serviços competentes.
No debate sobre os resultados práticos, João Miragaya, assessor do Instituto Brasil-Israel e mestre em História pela Universidade de Tel Aviv, afirma que a oposição critica o governo por não ter cumprido a promessa de eliminar o Hamas, que permanece atuante em Gaza. Em contrapartida, a administração defende que a ocupação militar de 60% da Faixa garante a segurança da população. Contudo, analistas avaliam que, na ausência de novos fatos extremos, o equilíbrio de forças entre coalizão e oposição permanece estável.
A disputa também afeta diretamente os candidatos, a exemplo do principal rival de Netanyahu, Gadi Eisenkot, que integra a ala militar e perdeu seu filho Gal Eisenkot, de 25 anos, e dois sobrinhos — o sargento Maor Cohen Eisenkot e o capitão Yogev Pazy — durante os combates. Monique Sochaczewski, professora de Relações Internacionais do IDP, destaca que o cenário político israelense está inclinado à direita, campo ao qual Eisenkot pertence, sem indícios de protagonismo da esquerda na reconstrução de alternativas.
Quanto ao futuro das negociações na região, especialistas indicam que o pleito não deve alterar significativamente os rumos diplomáticos nem viabilizar a criação de um Estado palestino. Segundo Miragaya, o apoio à solução de dois Estados recuou para uma minoria de um quarto a um terço da população desde outubro de 2023. Para Sochaczewski, embora uma solução definitiva para a questão palestina seja essencial para a paz duradoura, o tema não figura como prioridade central no atual panorama eleitoral.
