As eleições estaduais realizadas neste domingo (20) na Alemanha trouxeram resultados desafiadores para a União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler alemão Friedrich Merz. De acordo com pesquisas de boca de urna, a legenda enfrenta forte pressão devido ao avanço da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD) e de partidos de esquerda.
No estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, situado no nordeste do país, a AfD assumiu a liderança com 38% dos votos, conforme aponta a pesquisa da emissora pública alemã. O desempenho ocorre duas semanas após a legenda registrar sua marca mais expressiva em uma eleição regional na Saxônia-Anhalt. A CDU de Merz pontuou com 5%, situando-se pouco acima da cláusula de barreira para garantir assentos no Parlamento estadual e elevando a pressão sobre o chanceler.
Em paralelo, a eleição realizada em Berlim colocou o partido de esquerda Die Linke na ponta, registrando 26% das intenções de voto nas pesquisas de boca de urna, seguido pela CDU e pelos Verdes. Na capital alemã, onde 85% das famílias residem em imóveis alugados, a habitação e os aluguéis dominaram as preocupações do eleitorado, sendo citados por 32% dos entrevistados na pesquisa "BerlinTrend" do instituto Infratest dimap, superando temas como imigração, criminalidade e transporte.
O Die Linke estruturou sua campanha em torno de propostas como a regulamentação severa do mercado imobiliário e a desapropriação de grandes companhias privadas do setor. Em comício de encerramento na sexta-feira (18), a líder da legenda, Elif Eralp, enfatizou a necessidade de políticas voltadas para a população que mantém a cidade em funcionamento, criticando a concentração de riqueza e a pobreza infantil.
Repercussão e declarações de líderes
O anúncio dos resultados gerou manifestações de descontentamento e vaias no evento da CDU em Berlim. O chanceler Friedrich Merz classificou o desempenho em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental como um "desastre" durante um discurso, mas defendeu a adoção de reformas para solucionar os problemas econômicos e as divisões no país, pontuando que a solução não reside em retroceder ao passado. Antes das projeções, o pior resultado histórico da CDU em uma eleição estadual havia sido registrado em 1951, quando obteve 9% em Bremen.
A copresidente da AfD, Alice Weidel, celebrou os números em declaração à CNN, definindo a legenda como o novo partido do povo alemão. Weidel afirmou que ultrapassaram a CDU, apontou Friedrich Merz como um chanceler enfraquecido e avaliou que a sigla rival não deve mantê-lo na liderança. Na capital, a AfD alcançou o quarto lugar com 13,5%, superando os 9,1% obtidos no pleito para o Parlamento estadual de Berlim em 2023.
O pleito ocorre em um momento delicado para Merz, logo após a derrota sofrida pela CDU na Saxônia-Anhalt, onde a AfD conquistou 44% dos votos. Nos antigos estados da Alemanha Oriental, a legenda de extrema-direita tem capitalizado a insatisfação econômica e a oposição ao governo federal, defendendo propostas como deportação em massa de migrantes sem documentação, encerramento da ajuda militar à Ucrânia e estreitamento de laços com a Rússia. O candidato da AfD ao governo estadual já comparou a abordagem da sigla à agenda "America First" de Donald Trump.
Disputa acirrada e cenário social
A votação em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental também serviu de teste para o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, liderado pela governadora Manuela Schwesig, que ocupa o cargo desde 2017. Schwesig, primeira mulher a governar o estado, focou sua campanha em áreas como empregos, educação, coesão social e no combate ao avanço da extrema-direita. As pesquisas de boca de urna posicionaram o SPD logo atrás da AfD, com 36,5% dos votos.
O estado enfrenta desafios relacionados à escassez de mão de obra qualificada, impulsionada pelo envelhecimento populacional e baixas taxas de natalidade. Cerca de 50 mil trabalhadores de origem imigrante atuam na economia local, segundo dados da Reuters, exercendo função relevante enquanto lidam com o sentimento anti-imigração propagado pela extrema-direita.
Em Berlim, o cenário configurou-se como uma disputa acirrada entre o Die Linke e a CDU, impulsionada pela crise de acesso à moradia acumulada ao longo de uma década de alta nos aluguéis e previsões de escassez imobiliária.
