A realização de eleições na Ucrânia, adiadas em razão da guerra, depende de um acordo de paz ou de um cessar-fogo estável com a Rússia. A avaliação foi feita pela jornalista ucraniana Olga Rudenko, editora-chefe do The Kyiv Independent, em entrevista ao Poder360 durante visita à sucursal do jornal digital em São Paulo.
O conflito armado no país já dura mais de quatro anos e impede a realização de pleitos para o parlamento, atrasados há cerca de dois anos e meio, e para a presidência, com votação pendente há dois anos. A Constituição ucraniana proíbe votações durante a vigência da lei marcial, permitindo que o presidente Volodymyr Zelensky (Servo do Povo, de centro) permaneça no cargo.
Segundo Olga Rudenko, a população local compreende os riscos de segurança envolvidos na realização de um pleito durante o conflito. “Eu não diria que os ucranianos estão buscando ativamente uma eleição”, afirmou a editora-chefe, destacando que o consenso aponta para a necessidade de estabilidade prévia.
Dados de uma pesquisa realizada pelo KIIS (Instituto Internacional de Sociologia de Kiev) entre 20 de julho e 3 de agosto detalham o panorama do apoio popular:
- 57% apoiam novas eleições somente após um acordo final de paz e o término total da guerra;
- 23% defendem a votação após um cessar-fogo com garantias de segurança confiáveis;
- 15% querem eleições imediatas, antes do encerramento das hostilidades.
Pedido de ex-ministro e posição de Zelensky
Em agosto, o ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov defendeu publicamente a retomada das eleições, alegando que o país vive uma crise sistêmica de governança. Fedorov havia sido demitido em julho por Zelensky, apenas seis meses após assumir a pasta, sob a justificativa de incapacidade de trabalhar em sincronia com as Forças Armadas. De acordo com a jornalista, o episódio gerou protestos populares incomuns e reabriu o debate sobre o tema.
Zelensky declarou em 23 de agosto que o pleito atual representaria um “tsunami para o Estado” e dividiria a Ucrânia, afirmando que sua prioridade é conduzir o país ao fim da guerra e preservar sua soberania.
Popularidade e escrutínio
Levantamento do KIIS conduzido de 21 de agosto a 10 de setembro indica que 54% da população confia em Zelensky, enquanto 41% não confiam. Para Olga, o respaldo inicial consolidou-se porque o presidente permaneceu no país no início do conflito e atuou na manutenção do apoio internacional.
Por outro lado, a jornalista aponta que a gestão de assuntos internos e decisões polêmicas — como a demissão de Fedorov — afetam a aprovação presidencial. Para ela, a ausência temporária de votações exige fiscalização rigorosa: “Precisamos de uma fiscalização rigorosa e de alta qualidade sobre as pessoas que tomam as decisões”, pontuou.
