A derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos deixou três recados importantes para a política americana: o desgaste numérico da legenda, a permanência da pauta da diversidade no debate público e a necessidade de renovação das lideranças políticas. A avaliação é do cientista político Leandro Consentino, que participou do programa VEJA em Foco, apresentado por Marcela Rahal.
Na entrevista, Consentino afirmou que o resultado representa um sinal de alerta para os republicanos e para o presidente Donald Trump, que terá de lidar com um Congresso de maioria democrata nos dois últimos anos de seu mandato. Para o cientista político, a votação também oferece indicações sobre os temas que continuam mobilizando o eleitorado americano e sobre os nomes que começam a ganhar espaço na política do país. "Eu acho que há três recados muito nítidos aí para o Partido Republicano e para todos os Estados Unidos", resumiu.
O que a derrota numérica representa para os republicanos?
O primeiro recado, segundo Consentino, é o resultado eleitoral propriamente dito. A derrota nas urnas obriga o Partido Republicano a repensar sua trajetória e suas ideias, diante da perda de espaço no Legislativo e da dificuldade que o governo Trump terá para conduzir sua agenda.
Com os democratas no controle das duas Casas do Congresso, o presidente americano passará a governar sem maioria parlamentar. Consentino lembrou que esse cenário é conhecido na política dos Estados Unidos como lame duck, expressão utilizada para caracterizar um governante que enfrenta limitações políticas para implementar suas decisões. Na avaliação do cientista político, a nova composição legislativa deve tornar mais difícil a relação entre Executivo e Congresso. Trump já sinalizou que pretende vetar projetos aprovados pelos parlamentares, enquanto os democratas também poderão reagir a medidas tomadas pela Casa Branca. Consentino comparou o possível impasse à paralisia que marcou o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas durante a Guerra Fria, quando Estados Unidos e União Soviética utilizavam o poder de veto para bloquear iniciativas do lado adversário.
Por que a diversidade se tornou um recado político?
O segundo recado identificado por Consentino é simbólico. O cientista político chamou a atenção para a eleição de representantes que protagonizaram resultados inéditos na história política americana, entre eles um senador muçulmano, o primeiro homem abertamente gay a conquistar uma cadeira no Senado e mulheres que chegaram ao comando de governos estaduais. Para ele, essas conquistas demonstram que as pautas relacionadas à diversidade continuam presentes na sociedade americana, apesar das posições adotadas pelo governo Trump. "Essa não é uma pauta esgotada. Essa não é uma pauta que os Estados Unidos desprezam", afirmou.
Consentino destacou que os resultados representam uma resposta política a um conjunto de temas que esteve no centro das disputas entre republicanos e democratas. Na avaliação dele, o partido de oposição conseguiu transmitir a mensagem de que essas questões ainda mobilizam uma parcela relevante do eleitorado.
Como a renovação das lideranças pode mudar o cenário político?
O terceiro recado, de acordo com o cientista político, está relacionado à renovação dos quadros partidários. Consentino observou que os democratas conseguiram projetar novas lideranças, enquanto os republicanos enfrentam dificuldades para apresentar nomes capazes de representar uma renovação política. Ele citou o caso de James Talarico, eleito no Texas, como exemplo de uma liderança mais jovem que ganhou projeção na disputa. O resultado, segundo o especialista, ajuda a mostrar como os democratas começam a apresentar alternativas para ocupar espaços políticos nos próximos anos.
Do lado republicano, Consentino mencionou nomes como Marco Rubio, mas ponderou que essas lideranças também enfrentam o desgaste associado ao governo Trump. "Os democratas estão trazendo uma lufada de ar fresco", afirmou. Para o cientista político, a emergência de novos quadros é especialmente relevante diante da proximidade da próxima eleição presidencial americana, prevista para 2028.
