O agravamento da tensão institucional no Supremo
A crise no STF (Supremo Tribunal Federal) se intensificou na última terça-feira (1º), após o ministro André Mendonça quebrar o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal). O documento revela trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo proprietário do extinto Banco Master. A tensão institucional também envolve o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, suspeitos de atuar para conter o avanço das investigações sobre a instituição financeira.
Análises indicam que a crise no STF gera uma nova polarização e impacta o cenário eleitoral. Especialistas apontam que a liderança de Edson Fachin acabou sendo "atropelada" pelos demais ministros, restando a ele o comando de processos que definirão o futuro de dois colegas de Corte.
Acusações de improbidade e a resposta da presidência
Na última quinta-feira (3), por meio do inquérito das Fake News, Moraes acusou Mendonça de improbidade administrativa e abuso de autoridade na relatoria do Caso Master. O ministro solicitou ao presidente da Suprema Corte, Edson Fachin, a abertura de uma ação contra Mendonça por atuação fora do regimento jurídico. Fachin declarou que a resposta institucional será "firme, proporcional e rigorosa", assegurando que as apurações seguirão a Constituição e a legislação.
Fachin enfatizou que nenhuma autoridade está acima da Constituição e que interesses particulares não podem se sobrepor ao Estado Democrático de Direito. O presidente do STF estipulou um prazo de cinco dias para que Moraes, Mendonça, Andrei Rodrigues e Gonet se manifestem. Após colher as explicações, Fachin analisará a regularidade das apurações e poderá levar a questão ao plenário. Ele também defendeu a criação de um código de ética interno e o encerramento do inquérito das Fake News.
Detalhes do relatório da Polícia Federal
O relatório, baseado em dados do celular de Vorcaro apreendidos na Operação Compliance Zero, sugere proximidade entre Moraes e o ex-banqueiro. Em mensagens anteriores à sua prisão, Vorcaro consultou Moraes sobre sair do país e expressou gratidão: "Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você". A investigação mapeou encontros ocorridos entre fevereiro de 2024 e agosto de 2025.
O procurador-geral Paulo Gonet também é citado em conversas com Vorcaro, intermediadas pelo advogado Ciro Soares entre abril de 2024 e junho de 2025. As mensagens mencionam viagens, uísque, charutos e fotos de Gonet ao lado de Soares. Já Andrei Rodrigues é mencionado em diálogos onde Vorcaro questiona Moraes sobre a possibilidade de reverter as investigações contra o Master através da intermediação do diretor-geral da PF.
Análise jurídica sobre os próximos passos
Em entrevista à CNN, o professor de direito constitucional da UFF, Gustavo Sampaio, afirmou que a tendência é que o plenário do STF não forme maioria para autorizar uma investigação formal contra os ministros. Ele explicou que, embora as provas contra Moraes tenham sido colhidas "fortuitamente" e sejam consideradas válidas por parte da doutrina, qualquer desdobramento exige aval do plenário.
Luiz Fernando Esteves, professor do Insper, destacou que o julgamento será extremamente sensível. Segundo ele, o ponto de partida deve ser a análise da nulidade ou não do relatório da Polícia Federal solicitado por Mendonça, para somente depois discutir se o ministro extrapolou seus poderes.
