Representantes da indústria, do comércio e dos serviços manifestaram preocupação com a recente aprovação da redução da jornada de trabalho no Brasil, que altera o modelo de seis dias de trabalho para cinco dias semanais. De acordo com entidades empresariais, a mudança trará um aumento inevitável de custos operacionais e de preços para o consumidor.
A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) calculou que o acréscimo nos custos com novas contratações pode resultar em elevações de até 6% nos preços dos produtos comercializados. Segundo a entidade, a redução da jornada das atuais 44 horas semanais para 40 horas semanais, mantendo os salários, elevará os custos de produção em até 267 bilhões de reais. Para o consumidor, isso representa uma alta média de 6,2% nos preços finais, com impactos específicos como 5,7% de aumento em supermercados e até 6,6% no setor de roupas e calçados.
Grandes entidades do setor produtivo também criticaram o fato de o tema ter sido votado durante o período eleitoral, o que, segundo os porta-vozes, impediu uma discussão técnica aprofundada e contaminou o debate com interesses políticos e busca de votos.
Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) — entidade que representa majoritariamente micro e pequenos negócios do estado —, afirmou respeitar a decisão do Senado, mas classificou como preocupante a aprovação sem um debate detalhado sobre os impactos no setor produtivo. Ele declarou que a discussão deveria ter ocorrido fora do período eleitoral para evitar a influência de interesses eleitorais.
Na mesma linha, Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), classificou o projeto como uma “PEC Boca de Urna”. Skaf afirmou em posicionamento divulgado na noite de quarta-feira, após a aprovação no Senado, que a medida careceu de profundidade e alertou sobre o risco de migração de empregados para o mercado informal. O dirigente também declarou que nenhum país no mundo engessou a escala de trabalho na Constituição e que decisões açodadas geram custos pagos por toda a sociedade.
A CNI reforçou, em comunicado divulgado na quarta-feira, 14, antes da conclusão da votação no Senado no final da noite, que a mudança representa um retrocesso para o país em um cenário de baixa produtividade e falta de competitividade internacional.
O setor de bares e restaurantes também apontou reflexos negativos. Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel, afirmou que os impactos na sociedade serão extraordinários assim que a lei entrar em vigor, ressaltando que muitos estabelecimentos podem fechar as portas ou reduzir os dias de funcionamento. Conforme os dados da associação, cerca de 15 milhões de pessoas trabalham atualmente na escala 6x1. Para manter os negócios abertos nos dias habituais com a nova jornada, a entidade estima que o país precisaria de mais de 3 milhões de novos trabalhadores, cenário que classificou como uma escassez de mão de obra que gerará disputas por funcionários.
