A Espanha destaca-se no cenário europeu atual como a única grande economia do bloco comunitário liderada pela esquerda, fruto da gestão do primeiro-ministro Pedro Sánchez, no poder desde 2018 pelo Partido Socialista graças ao avanço econômico e à habilidade de construir coalizões em um Congresso dividido. Contudo, a popularidade do premiê enfrenta forte desgaste devido a investigações judiciais que atingem seu núcleo familiar.
Begoña Gómez, esposa de Sánchez, professora da Universidade Complutense de Madri e líder do departamento de inovação social da instituição, tornou-se alvo da Justiça após registrar um software de gestão para pequenas empresas em nome próprio, por meio de uma empresa da qual é sócia, em vez de associá-lo à universidade. Embora acusações mais graves de corrupção e apropriação indébita tenham sido descartadas, persistiram suspeitas de malversação de recursos públicos e tráfico de influência, delitos cujas penas podem chegar a treze anos de prisão.
O processo judicial gerou intensa repercussão política. O juiz Juan Carlos Peinado decidiu avançar com a denúncia contra a primeira-dama, indo contra a recomendação da Procuradoria da República, que pedia o arquivamento do caso. A decisão gerou acusações de que o magistrado atuaria em benefício do partido de extrema direita Vox, cuja organização vinculada foi a responsável por expor o episódio inicialmente. “Há críticas intensas sobre a postura do magistrado. Pelo momento, só o que se tem é um espetáculo político”, avalia Manuel Cancio Meliá, professor de direito penal da Universidade Autônoma de Madri.
O julgamento e as próximas eleições gerais estão previstos para ocorrer no ano seguinte, embora ambas as datas permaneçam sem confirmação oficial. Caso um pleito ocorresse no momento atual, analistas apontam que Sánchez enfrentaria sérios obstáculos para garantir sua reeleição. Pesquisas indicam que apenas 33% dos eleitores possuem uma percepção favorável do líder socialista, enquanto 63% manifestam rejeição.
O cenário político desfavorável é agravado por outros fatores, como a questão migratória. O premiê perdeu apoio após a entrada de cerca de 70 000 marroquinos em Ceuta, território espanhol no norte da África, o que gerou acusações de leniência por parte da oposição, críticas intensificadas após o premiê realizar uma visita rápida ao enclave antes de viajar de férias para Andorra com a família.
Adicionalmente, a Espanha enfrenta uma grave crise no setor de habitação, marcada por imóveis supervalorizados devido aos aluguéis de temporada. A repercussão do despejo de uma idosa de 87 anos, que morava no mesmo apartamento há setenta anos após sofrer um reajuste de 275%, provocou protestos em âmbito nacional. O governo respondeu com um pacote de 29 medidas para regulamentar o mercado imobiliário, incluindo a proibição de novos despejos até 2030. No entanto, a iniciativa precisa de aprovação parlamentar e o governo não possui maioria na casa legislativa, encontrando maiores barreiras diante do enfraquecimento político do premiê em múltiplas frentes.
