A historiadora e jornalista americana Anne Applebaum afirma que o totalitarismo não é um fenômeno restrito ao passado. Vencedora do Prêmio Pulitzer pelo livro Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos (2003) e autora de obras como A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia (2017) e O Crepúsculo da Democracia (2021), Applebaum analisa os mecanismos históricos do controle estatal e aponta paralelos com o mundo contemporâneo em entrevista baseada em seu livro relançado Cortina de Ferro: O Esfacelamento do Leste Europeu (1944–1956), publicado pela Editora Record.
Na obra, a autora defende que a imposição do regime soviético na Europa Central e Oriental no pós-Segunda Guerra Mundial não foi um movimento político espontâneo, mas um projeto de dominação planejado por Moscou. Com base em pesquisas em arquivos antes secretos — como os da Stasi na Alemanha, acervos do Exército Vermelho e de ministérios da Educação e da Cultura da Hungria e da Alemanha Oriental —, a historiadora detalha como líderes comunistas treinados em Moscou foram importados, a propaganda rádio-difundida foi instrumentalizada e a repressão policial foi aplicada para instituir o novo regime.
Prioridades do controle soviético
Apesar de o marxismo ter matriz econômica, Applebaum aponta que a estatização imediata não foi a prioridade inicial dos soviéticos. Os arquivos revelam que o foco recaiu sobre o rádio — considerado a rede social da época —, a educação e os grupos de juventude. Associações independentes, como grupos escoteiros e juvenis democrático-cristãos, foram perseguidas para que o Estado monopolizasse o controle da sociedade e eliminasse qualquer oposição ou instituição fora de sua alçada, seguindo a premissa leninista mantida na Rússia contemporânea.
Para a transição econômica, a estratégia envolveu a estatização direta de propriedades tomadas de alemães ou abandonadas, e o estrangulamento indireto de empresas privadas, como o monopólio do fornecimento de papel. Pequenas oficinas e fazendas privadas foram toleradas temporariamente devido à ineficiência das empresas estatais no abastecimento básico de alimentos.
Paralelos com o cenário contemporâneo
Ao traçar paralelos com a atualidade, a escritora aponta que a tentativa de destruir a confiança pública nas instituições, tribunais e imprensa livre é constante em viradas autoritárias. Ela destaca o uso de linguagem desumanizadora por autocratas para rotular adversários como vermes, parasitas, espiões ou traidores, citando o vocabulário empregado na campanha presidencial de Donald Trump em 2024 nos Estados Unidos.
Applebaum também afirma que a Rússia aplica atualmente nas áreas ocupadas do leste da Ucrânia e na Crimeia o mesmo manual do Exército Vermelho de 1945, incluindo a prisão de autoridades locais, a proibição de idiomas e histórias nas escolas, o sequestro de crianças para reeducação e alianças com redes criminosas. Como lição para o Ocidente, ela defende a urgência de criar e proteger instituições e veículos de mídia transparentes para combater a polarização e restaurar a confiança na informação verídica.
