Países que integram o Escudo das Américas firmaram um acordo na terça-feira (22) para classificar formalmente 24 facções apontadas por narcotráfico como ameaças compartilhadas. A lista de organizações inclui o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho). O pacto prevê sanções como o congelamento de ativos, restrições imigratórias para membros e simpatizantes, além de responsabilização criminal para quem prestar apoio material aos grupos.
A assinatura do documento por 14 países ocorreu de maneira concomitante ao pronunciamento de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde o líder norte-americano detalhou ações contra cartéis acompanhadas de ameaças militares explícitas. O Brasil não integra o Escudo das Américas e manifesta oposição à classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.
Vitelio Brustolin, professor da UFF e pesquisador de Harvard, avaliou os três pilares que sustentam a declaração do grupo: a defesa das economias via cooperação econômica, a governança democrática focada no combate a redes armadas de narcoterrorismo, e o respeito mútuo à soberania nacional dos signatários. O pesquisador apontou que o texto direciona as tratativas para uma reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos) com o objetivo de acionar o estatuto da instituição, lembrando que o Brasil faz parte da OEA embora fique de fora do Escudo das Américas.
O especialista também ressaltou que o acordo contempla o intercâmbio de inteligência e tecnologias voltadas à vigilância e repressão, abrindo caminho para a aplicação da força de maneira cooperativa entre os signatários. Brustolin observou que nem Brasil nem México receberam convites para o bloco, apesar de Trump ter declarado em entrevista que acreditava na inclusão de ambos. Na visão do docente, o Escudo das Américas é composto por governos ideologicamente alinhados aos Estados Unidos.
Ameaças ao Irã e cenário geopolítico
Durante sua fala na ONU, Trump proferiu ameaças militares contra o Irã ao mencionar que decidiria entre negociar ou aniquilar o país. Lourival Sant’Anna, analista de internacional da CNN, classificou a retórica como parte de uma estratégia política recorrente na crise de seis meses. Segundo ele, o arsenal de medidas é repetitivo, baseando-se em coerção econômica, bloqueio naval, ataques pontuais e discursos inflamados, sem que haja apoio interno nos Estados Unidos — inclusive entre republicanos — para o desembarque de tropas, tornando inviável dobrar o governo iraniano ou liberar o Estreito de Ormuz de forma sustentável.
No panorama mais amplo da Assembleia Geral, Brustolin apontou que discursos de representantes do Canadá, da França, do Reino Unido e do Japão apontam para uma coordenação contrária às diretrizes de Trump. O pesquisador destacou a atuação de Mark Carney pelo Canadá na defesa de alianças entre potências médias e a União Europeia, movimento que também atrai a Austrália e ressalta críticas ao Brexit.
Sobre a visita de Xi Jinping aos Estados Unidos, a primeira em 11 anos, Sant’Anna avaliou que Pequim negocia a partir de uma posição de força. Para o analista, a China dispõe de trunfos expressivos, como minerais críticos, mercado massivo, reservas multibilionárias e capacidade produtiva em manufaturados tecnológicos, configurando uma tendência bastante favorável aos interesses chineses.
