O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, convocou uma eleição antecipada para 29 de novembro nesta segunda-feira (5). A decisão ocorre em uma tentativa de fortalecer seu mandato após um Parlamento fragmentado rejeitar na semana passada os principais decretos do governo sobre habitação, em meio a protestos em todo o país.
A convocação representa uma aposta de alto risco para Sánchez, cujo Partido Socialista aparece atrás em quase todas as pesquisas de opinião. Uma derrota eleitoral pode significar o fim de um dos últimos governos de esquerda da Europa, em um momento de avanço da extrema direita na região. No entanto, Sánchez é conhecido como um articulador político capaz de surpreender adversários.
Em pronunciamento televisionado, o primeiro-ministro declarou: “Precisamos renovar o apoio da população” e acrescentou que a meta é “mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no Parlamento, que nos permita superar interesses estabelecidos, promover novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha”. Sánchez também admitiu ter cometido erros, não ter cumprido algumas promessas de campanha e reconheceu que parte da maioria social está insatisfeita.
O principal índice da Bolsa espanhola, o IBEX, e os títulos do governo permaneceram praticamente estáveis após o anúncio. O principal partido de oposição, o PP (Partido Popular), publicou a mensagem “FINALMENTE” em uma postagem na rede social X, com seu líder, Alberto Núñez Feijóo, com previsão de conceder uma entrevista coletiva ainda nesta segunda-feira. Os conservadores pressionavam pela dissolução do Parlamento durante grande parte da atual legislatura.
As pesquisas apontam que uma coalizão liderada pelo PP com o apoio do Vox é o resultado mais provável, o que pode levar um partido de extrema direita ao governo central espanhol pela primeira vez desde o retorno da democracia após a morte do ditador Francisco Franco. Por outro lado, o líder do Vox, Santiago Abascal, afirmou ao canal de televisão Antena 3 que o resultado da eleição será imprevisível, pontuando que as pesquisas indicavam o mesmo cenário em 2023, quando Sánchez conseguiu formar maioria.
Ao longo de três mandatos consecutivos em oito anos, Sánchez viabilizou coalizões frágeis reunindo desde a extrema esquerda até a direita separatista. Contudo, a fragmentação entre aliados resultou na aprovação de poucas leis no terceiro mandato e na incapacidade de aprovar um orçamento desde 2023, apesar do bom desempenho da economia espanhola.
O economista e presidente da consultoria Freemarket Corporate Intelligence, Lorenzo Bernaldo de Quiros, avaliou que as medidas para a habitação permitiram a Sánchez desviar o foco de temas politicamente prejudiciais, como a crise migratória em Ceuta e escândalos de corrupção. “Esta é uma janela de oportunidade”, afirmou de Quiros, ressaltando que, caso as eleições não fossem convocadas rapidamente, os temas impopulares retornariam ao debate.
